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A novela “A VIAGEM”: FANTASMAS E ASSOMBRAÇÕES

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 390 – novembro de 1994

Em síntese. A novela “A VIAGEM” tem chamado a atenção para fenômenos mediúnicos: assombração, movimentação espontânea de carros, motos. . . e reencarnação. O presente artigo considera a assombração do ponto de vista da parapsicologia, mostrando que não se deve a espíritos desencarnados nem ao demônio, mas a um traumatismo existente dentro de uma pessoa que mora na casa “mal-assombrada” ou a freqüenta. Esse traumatismo pode exteriorizar-se mediante telergia e psicocinesia, suscitando o tumulto e a tempestade do ambiente; o organismo humano, ao conceber suas emoções, emite energia; esta, em pessoas “dotadas”, é tão forte que ela se pode traduzir em movimentação de cadeiras, mesas e quadros em torno da pessoa sensitiva.

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A novela “A VIAGEM” lançou mais uma vez à consideração do público fenômenos mediúnicos e reencarnação. 0 personagem Alexandre resolve “reencarnar-se no filho de Raul e Andrezza”; “enfurece cães, faz motos e carros andarem sozinhos, assustando Lisa, Teo e Tato” (revista CONTIGO! de 9/8/94, p. 37). As cenas da novela têm suscitado numerosas interrogações. Sobre a reencarnação já foram publicados vários artigos em PR; cf. 321/1989, pp. 91-95. Neste número abordaremos a questão do Poltergeist ([1]) ou da casa mal-assombrada ou, ainda, dos objetos que se movem por si próprios, dando a impressão de que um espírito do além os impulsiona.

1. A NOVELA

A revista CONTIGO! de 9/8/94, p. 37, expõe o problema nos seguintes termos:

“Em 1982, o diretor Tobe Hooper assustou meio-mundo com as fortes cenas do filme Poltergeist — O Fenômeno. A história, repleta de efeitos especiais, mostrava uma menina possuída pelas forças do mal, provocando as mais impressionantes situações. Pedras e objetos voando, incêndios espontâneos, portas e janelas batendo sem motivo aparente são exemplos das conseqüências dessa diabólica obsessão.

Alguns espíritas e especialistas em Poltergeist garantem que a novela A Viagem é extremamente eficiente quando mostra como se manifestam essas energias do mal que ocasionam fenômenos físicos.

Desde que morreu e foi para o Vale dos Suicidas, o espírito de Alexandre (Guilherme Fontes) vem usando recursos desse tipo para se vingar dos inimigos. Uma das primeiras vítimas foi Dudu (Daniel Ávila), filho de Otávio Jordão (Antonio Fagundes). Recentemente, o garoto começou a se sentir mal e caiu da cama. No mesmo instante, a palavra VINGANÇA surgiu na tela de seu computador.

Em outra ocasião, Alexandre fez com que uma moto andasse sozinha e voasse sobre Tato (Felipe Martins) e Bia (Fernanda Rodrigues), quase atropelando os dois. Não satisfeito, o espírito maligno de Alexandre fez com que Téo (Maurício Mattar) fosse mordido por um cão enfurecido. Capítulos depois, o personagem levou outro susto: Téo pitava conversando com Lisa (Andréa Beltrão) no carro, quando os vidros subiram sozinhos e as portas foram travadas. Como se não bastasse, ele acelerou involuntariamente o automóvel e por pouco não sofreu um acidente.

A jornalista Elsie Dubugras, redatora-chefe da revista Planeta, há 52 anos estuda os casos de Poltergeist no Brasil. E garante que, na vida real, esse fenômeno é muito mais comum do que se imagina.

Segundo a especialista, em 1973 uma dessas ocorrências sinistras tomou conta dos noticiários. Em uma casa do bairro do Ipiranga, em São Paulo, surgiram focos de incêndio e todas as facas desapareceram. Tempos depois elas foram achadas dentro de um vaso. Além disso, várias roupas foram encontradas queimadas em armários.

Anos depois, no município de Mogi-das-Cruzes, também em São Paulo, a casa de uma família de protestantes foi tomada por espíritos obsessores:

— Eles estavam lendo um trecho da Bíblia e, inesperadamente, o livro foi atirado ao chão e destruído. O telhado da residência começou a voar e os sofás foram todos rasgados lembra a jornalista.

Antônio Geraldo de Pádua, um dos médiuns de cura e desobsessão mais respeitados do país, cita outro caso de repercussão nacional: o de uma garotinha gaúcha que, devido à presença de espíritos em sua casa, fazia colchões, lençóis e objetos levitarem”

Poder-se-iam multiplicar os relatos de Poltergeist ou de corpos que se movem “diabolicamente”, como se uma entidade do além os impelisse. — Pergunta-se: será de fato um espírito desencarnado ou um anjo mau que intervém na Terra, assustando os homens dessa maneira?

Para responder a tais perguntas, consideraremos: 1) a psicocinesia e a telergia; 2) o exercício destas forças no caso das casas “mal-assombradas”.

2. A TELECINESIA

A movimentação de corpos distantes do respectivo movente é chamada telecinesia (tele = longe; kinéo = mover, em grego). Faz-se mediante faculdades psíquicas ou ondas eletromagnéticas emitidas pelo sujeito; donde o nome de psicocinesia que também se lhe dá, usando-se então a sigla PK (psikapa).([2])

A psicocinesia pode ocorrer de maneira consciente, como veremos logo a seguir, ou de modo inconsciente, como se dá nas casas “mal-assombradas”, de que trataremos depois.

Examinemos mais atentamente o que seja a telecinesia ou psicocinesia.

2.1. Telecinesia: que é?

A telecinesia é a movimentação de objetos por telergia, isto é, por uma força física projetada pelo organismo de um vivente. Telecinesia é o fenômeno como tal; telergia é a força guiada pela mente, através da qual se realiza a telecinesia. Hoje em dia julga-se que as nossas atividades nervosas e musculares, assim como as emoções, são acompanhadas por atividades elétricas. Ora a Física ensina que toda corrente elétrica produz um campo magnético. É lógico pensar que, numa pessoa normal, esse magnetismo fica imperceptível, mas que, em estado de transe ou de forte excitação, certas pessoas dotadas do ponto de vista parapsicológico manifestam esse magnetismo e a correspondente telergia.

A telergia é dirigida pelo psiquismo (consciente ou inconsciente). O psiquismo, em cada caso, escolhe uma forma ou outra de telergia, uma transformação ou outra de energia. Assim verifica-se que a telergia se apresenta semelhante a um fluido magnético, como dito; mas ela se apresenta também sob a forma de um prolongamento do corpo do operador ou como uma espécie de pseudomembro, que se pode diversificar enormemente, resultando no que se chama “ectoplasmia”; em tais casos, o observadora induzido a crer que uma entidade do além se materializa e aparece neste mundo, como afirma o espiritismo, contraditado pelas pesquisas modernas da parapsicologia.

A existência da telergia e da telecinesia é comprovada por numerosas experiências, que os manuais de parapsicologia relatam; explicam cientificamente fenômenos surpreendentes que, à primeira vista, parecem resultar de intervenções do além. Eis alguns desses casos mais notáveis:

O Dr. Crawford submeteu a Sta. Kathleen Goligher a várias experiências e verificou que, mediante concentração de sua mente, era capaz de levantar mesinhas de 4 quilos e 700 gramas ou de 2 quilos e 700 gramas, assim como um tamborete de um quilo e 150 gramas. Fazia-o com desembaraço, rapidez e segurança. A altitude do erguimento variava entre 20 e 30 centímetros no caso das mesinhas; o tamborete ia tão alto que alguém poderia passar por baixo se inclinasse a cabeça. -.- Há, porém, casos em que a telergia é tão poderosa que consegue levantar móveis pesados a alturas consideráveis. Assim Stainton Moses conseguiu levantar uma mesa que dois homens com dificuldade conseguiriam deslocar; Douglas Home provocou o erguimento de um piano; Ochorowicz e Lehiedzinski viram, em pleno dia, um harmônio, que pesava mais de 100 quilos, desusar sobre um tapete.

Conta-se também o caso do poeta francês Alfred Musset (1810-1857); estava gravemente enfermo e precisava de chamar alguém, mas sentia-se tão fraco que nem se podia levantar, embora muito quisesse chegar perto da campainha para tocar. Olhava então muito aflito para a campainha; ora eis que, de repente, esta tocou. . . As senhoras Martillet e Claudet confirmaram o fato, pois ouviram o sinal e, pouco depois, observaram que a enfermeira entrava no quarto para atender ao paciente.

Outra experiência típica de telecinesia voluntária deu-se em 1967 na cidade de Leningrado, hoje Petrogrado (Rússia). Uma mulher foi submetida a experiências meticulosas, após terem os médicos averiguado, até mediante radiografias, que ela nada trazia escondido debaixo da roupa ou dentro do seu corpo. A seguir, fizeram-na sentar diante de uma mesa com as mãos estendidas, os dedos abertos em cima de uma bússola colocada no meio da mesa; os seus músculos estavam retesados. A mulher pôs-se a olhar fixamente a bússola; o seu semblante se franziu profundamente, dando provas de que todo o seu ser estava fortemente tenso. Os minutos foram passando; da sua testa corriam gotas de suor intenso, indicando que a pessoa continuava a lutar interiormente; aos poucos, a agulha da bússola estremeceu e começou a deslocar-se numa direção diferente. A mulher foi dirigindo suas mãos num movimento circular e a agulha foi girando com elas, fazendo a mesma rotação que um ponteiro de relógio. Em certos casos, parece que o campo de atração produzido pelo corpo humano pode ser mais forte que o da própria Terra.

Os fenômenos da psicocinesia foram estudados com especial interesse pelos cientistas russos, entre os quais se tornou famosa a jovem Nelya Mikhailova. Esta, aos quatorze anos de idade, combatia no exército russo contra os alemães. Ferida, foi hospitalizada — o que lhe deu a ocasião de manifestar as suas estranhas faculdades. Declarou ela: “Um dia eu estava muito irritada e transtornada. Caminhava na direção de um armário, quando de repente um jarro se deslocou, caiu e se quebrou em mil pedaços”. Depois deste primeiro fato, outros muitos ocorreram: os objetos se deslocavam espontaneamente, as portas se abriam e fechavam, as luzes se acendiam e apagavam. Todavia Nelya diferia das pessoas que provocavam tais fenômenos em casas mal-assombradas; estas ignoram que são causadoras dos distúrbios de assombração, ao passo que Nelya tinha consciência de que era ela a responsável pelas alterações do seu ambiente; ela podia excitar e comandar conscientemente a sua energia, que atuava em torno dela.

Um dos primeiros estudiosos dos talentos de Nelya foi o biólogo russo Eduardo Naumov, da Universidade de Moscou. Por ocasião de um teste realizado em seu laboratório, Naumov espalhou por cima de uma mesa o conteúdo de uma caixa de fósforos; Nelya pôs suas mãos a girar por cima dos fósforos, trêmula pelo esforço de concentração que fazia; finalmente os fósforos todos se deslocaram para uma das margens da mesa e foram caindo sucessivamente por terra. A fim de evitar correntezas de ar e outras interferências, Naumov recomeçou a experiência colocando um invólucro de vidro sobre os fósforos; não obstante, os fósforos se moveram como dantes. Naumov colocou ainda cinco cigarros debaixo do vidro; Nelya mostrou que ela podia escolher entre os cinco, de modo a só pôr em movimento um dos cigarros.

Vadim Marine, que jantou com Nelya, narra o seguinte: “Achava-se um pedaço de pão sobre a mesa, a certa distância de Mikhailova. Concentrando-se, ela o olhou atentamente. Passou-se um minuto. . . depois outro. . . e o pedaço de pão começou a deslocar-se. Chegando à margem da mesa, moveu-se de maneira mais rápida e regular. Mikhailova baixou a cabeça, abriu a boca e, como nos contos de fadas, o pão mesmo (desculpem-me não ter outras palavras) lhe saltou para dentro da boca” (o relato se acha no livro de S. Ostander e L. Schreder: “Psychic Discoveries Behind the Iron Curtain. Englewood Cliffs, N.J. 1971).

A mais impressionante das experiências realizadas com Mikhailova consistiu em quebrar um ovo cru numa solução de água e sal a 1m80cm de Nelya. Esta concentrou-se heroicamente sobre o ovo e, finalmente, após meia-hora, conseguiu até mesmo separar, uma da outra, a clara e a gema do ovo.

Tal pessoa foi submetida a minuciosos exames médicos: verificou-se que tinha em torno do corpo um campo magnético tão intenso que era apenas dez vezes menos potente que o da própria Terra, emitia ondas cerebrais de tipo singular, pois a voltagem produzida na parte de trás da cabeça era cinqüenta vezes mais forte que a da frente. Durante a experiência com o ovo, o eletroencefalograma de Nelya revelou intensa excitação emocional; o eletrocardiograma apresentou graves irregularidades, sinal de grande inquietude; o pulso se elevou a 240 batidas por minuto, ou seja, uma cota quatro vezes superior à normal; registraram-se elevadas porcentagens de açúcar no sangue, além de outras perturbações endócrinas, que todas caracterizam a estafa. Durante os trinta minutos de experiência, Nelya perdeu mais de um quilo: no fim do dia, estava fraca e temporariamente cega, sentia dores nos braços e nas pernas, além de tonteiras.

Ora os fenômenos ocorridos com Nelya Mikhailova supõem a ação da força de vontade da heroína a mover as faculdades psicocinéticas (o PK) da mesma pessoa.

Tornou-se famoso no Brasil o caso de Uri Geller, israelita, que se apresentou na televisão a dobrar peças de metal (por exemplo, uma chave, uma colher. . .) à distância mediante a força do seu pensamento. Estas exibições foram discutidas; a televisão não fornece bases seguras para se poder investigar o fenômeno com exatidão; seria preciso que Uri Geller tentasse reproduzir suas façanhas sob controle médico, com a exclusão de qualquer possibilidade de truque ou interferência estranha. Depois disto é que se poderia proferir um juízo sobre o caso.

A psicocinesia é realidade amplamente estudada por Joseph Rhine nos Estados Unidos. Após vinte e cinco anos de testes e experiências realizadas nas mais diversas circunstâncias, concluiu que “o espírito possui realmente uma força capaz de afetar diretamente a matéria física”. Rhine julga que o número de provas em favor da psicocinesia é tão grande que “o simples fato de repetir os testes PK com o mero objetivo de encontrar mais provas do efeito PK seria inconcebível perda de tempo”.

Deve-se acreditar que a telergia de uma pessoa pode ser reforçada pela de outras pessoas acompanhantes; dá-se então o polipsiquismo ou polifisismo. Quanto maior é o número de pessoas que assistem a um indivíduo dotado, tanto mais retumbante pode ser o resultado obtido.

Passemos agora ao exame dos casos de telecinesia inconsciente e involuntária.

3. AS ASSOMBRAÇÕES

3.1. O Problema

A telecinesia inconsciente costuma ocorrer nas casas ditas mal-assombradas. Nestas muitos supõem haver um espírito desencarnado perturbando os moradores, porque está descontente com eles ou lhes quer pedir alguma coisa. Até mesmo autoridades públicas aceitam esta hipótese ou, ao menos, a divulgam. A fim de ilustrar o problema, vai aqui citada uma notícia extraída do JORNAL DO BRASIL de 21/8/94 e redigida por Daniela Matta:

CAÇA-FANTASMAS NO RIO

Roteiro turístico mostrará locais de visões misteriosas

“Portas batendo, espectros de freiras sem cabeça e barulho de correntes sendo arrastadas pelo chão — os cariocas não precisam mais ir à Escócia ou Inglaterra para viver experiências de arrepiar os cabelos. A partir de setembro, um roteiro criado pelo historiador Milton Teixeira mostrará a céticos e curiosos em geral os pontos mais fantasmagóricos do Rio.

O roteiro, segundo Milton Teixeira — um dos maiores especialistas em história da cidade — inclui mais de 20 prédios assombrados por ‘almas desencarnadas, como o Teatro Municipal, a Fortaleza de Santa Cruz e o Museu Histórico Nacional’. Nestes lugares, garante ele, é comum se escutar gritos, sussurros e pedidos de socorro. A Fortaleza de Santa Cruz, em Niterói, serviu como presídio até o Golpe de 64. Nas celas vazias do subterrâneo, afirma ele, ouvem-se gemidos e choros.

Tiradentes — Outro prédio rico em mistérios é o do Museu Histórico Nacional, antigo Arsenal da Marinha, no Centro. A atual direção não confirma a existência de almas penadas rondando o prédio, mas admite que há motivos que justificariam assombrações, lembrando que numa das celas do calabouço foi esquartejado o corpo de Tiradentes.

Na Cinelândia está a maior concentração de fantasmas por metro quadrado do Rio. Quem garante é Milton Teixeira, que incluiu no seu roteiro sobrenatural o Teatro Municipal, a Biblioteca Nacional, o Museu Nacional de Belas Artes, a Câmara dos Vereadores e o antigo prédio do Supremo Tribunal Federal (STF). A explicação para isso vem do século 18, quando no loca! ocupado pela Câmara dos Vereadores existiam ruínas de uma capela onde eram realizados cultos satânicos.

Mas que não se pense, diz Milton Teixeira, que fantasmas só habitam construções antigas. Com a palavra os funcionários do moderno prédio da Faculdade Cândido Mendes, no Centro: muitos garantem que já ouviram gritos e barulho de areia sendo jogada no chão. A Riotur, instalada no oitavo andar, já teve um bom número de fantasmas em seu quadro”.

Entre os prédios mal-assombrados do Rio de Janeiro, a notícia do jornal menciona o Mosteiro de São Bento.

Que dizer a propósito?

1)    Vê-se que há falta de espírito crítico em tal notícia, pois o autor deste artigo mora no Mosteiro de São Bento do Rio e pode assegurar que lá não se ouvem vozes, gemidos ou clamores misteriosos; nenhum sintoma de assombração, nem no passado, foi alguma vez registrado nessa casa. 0 mesmo se deverá dizer a respeito de outros prédios indicados como “assombrados”;

2)    A fantasia popular se compraz em imaginar estórias ou lendas, especialmente a propósito de casas antigas; não é raro ouvirem-se tais relatos, que, na verdade, carecem de fundamento ou talvez se baseiem num fenômeno cientificamente explicável, mas indevidamente ornamentado pela imaginação dos pósteros. Há em todo ser humano o gosto latente de estórias maravilhosas, mais belas e interessantes do que a realidade chã ou insípida de cada dia. “Vulgus vult decipi”, já diziam os romanos; “a massa quer ser enganada”. . . , ela o quer inconscientemente, levada pelo atrativo do mundo mágico e mítico, atrativo que paradoxalmente sobrevive em nossa época de racionalismo e sofisticada tecnologia.

3.2. A Explicação Científica

Está averiguado que os fenômenos de casas mal-assombradas não se devem a fatores transcendentais, mas, sim, ao psiquismo de uma ou mais pessoas que moram em tais casas ou as freqüentam. Tais pessoas trazem dentro de si um problema que as agita interiormente: são adolescentes ou jovens rejeitados por seus pais ou mal-sucedidos em seus estudos, em seu namoro, em seu trabalho… Tal situação gera em seu íntimo uma tempestade de sentimentos e afetos, tempestade que se exterioriza mediante a telergia, provocando a tempestade do respectivo ambiente (móveis que se deslocam, quadros que caem, lâmpadas que estouram…). Explica o Pe. Edvino Friederichs:

“A telergia é, como todo fenômeno parapsicológico, um efeito de psicorragia. Quando há uma dissociação dos tecidos, o corpo começa a sangrar. Temos então a hemorragia. Quando há uma dissociação psíquica e escapam indevidamente nossas forças psíquicas, dizemos por analogia que há uma psicorragia. A telergia é um fenômeno de desagregação e liberação de forças motoras, plásticas… dirigidas pelo psiquismo” /’Casas Mal-Assombradas, p. 15).

Uma vez retiradas da casa “infestada” essas pessoas angustiadas, a paz volta ao ambiente e cessa a “assombração”. Esta explicação resulta da observação de numerosos casos que, entre outros, o parapsicólogo Pe. Edvino Friederichs colecionou em seu livro “Casas Mal-Assombradas. Fenômenos de Telergia” (Ed. Loyola). De tal obra extraímos os seguintes episódios:

INCÊNDIOS MISTERIOSOS

“A 7 de outubro de 1974 fui atender a um caso notável de termogênese, que se transformou em pirogênese. Em determinada casa da Rua Prudente de Morais, na cidade de Jundiaí, SP., originaram-se pequenos incêndios em nove pontos diferentes. Tudo ocorreu no espaço de meia-semana, entre 30 de setembro e 3 de outubro, e por via misteriosa, isto é, ninguém pôs fogo em parte nenhuma. Todos os inquilinos da residência, unanimente o asseveram… Ninguém conscientemente tem a mínima recordação de algum ato de leviandade, desleixo ou má-intenção em relação a fogo. E tudo se deu exclusivamente durante o dia, quando as empregadas estavam presentes, e sempre de surpresa.

Dentro da residência houve três pequenos incêndios. No aposento das crianças queimou parte de uma colcha. Quando deram pelo fato, conseguiram apagar o fogo logo. Na cama de uma das meninas o fogo carbonizou uma superfície de 46 centímetros sobre 33 cm do colchão. A chama alcançou cerca de um metro de altura, queimando a roupa da cama, em parte. Essa labareda já foi mais difícil de dominar, mas conseguiu-se, jogando bastante água em cima. Em outra ocasião, a borda de uma cama foi carbonizada numa faixa de 36 cm de comprimento por 35 cm de largura. Os demais casos sucederam na garagem, nas adjacências e no quartinho de despejos.

Um armário com material de cozinha, panos, talheres, ardeu na parte inferior, danificando muitos utensílios. O curioso, porém, foi que numa prateleira imediatamente em cima, onde, entre outras coisas, se achava também um litro inteiro de gasolina, nada aconteceu. Verdade é que a gasolina estava dentro de uma garrafa fechada. Uma pequena caixa de metal, contendo jornais, foi duas vezes atingida pelo fogo, que se apagou sozinho, após ter consumido o conteúdo. Uma cortina, de três metros de comprimento por dois metros de altura, foi totalmente destruída pelas chamas. O fenômeno mais singular, entretanto, é o de uma grande estante de notas fiscais, atacada, por via misteriosa, por um fogo mais violento. O fogo carbonizou a madeira das prateleiras, tanto do lado, como embaixo delas e, por incrível que pareça, apenas chamuscou os papéis…

Eis a relação dos principais fenômenos sucedidos naquela casa. É bem compreensível que o casal lá residente e seus filhos estivessem preocupados com tão estranhos acontecimentos.

Um Feitiço ou os Maus Espíritos?

Nem uma nem outra coisa. Trata-se de um caso parapsicológico de telergia, chamado termogênese ou pirogênese. Termogênese, quando produz somente calor; pirogênese, quando produz fogo. Pelas descrições o leitor percebe, à primeira vista, tratar-se de um fogo dirigido, como se fora comandado por alguém, manejando um maçarico. Queimou em determinado ponto, e, logo em cima, ao lado ou embaixo, permaneceu tudo intato, sem sinal de queimadura. Incontestavelmente, um fogo diferente. Não é uma queima normal. A que fator atribuir, pois, tão estranhos efeitos?

Na pesquisa por mim realizada, no intuito de desvendar o mistério, verifiquei ser o fenômeno produzido por uma das duas empregadas da família. Antes de proceder ao relaxamento neuromuscular com as duas, indaguei de cada uma, em particular, se estava contente com o seu emprego, com os donos da casa, se na família delas, com os pais, parentes, vizinhos ou namorados tudo ia bem, tudo em paz e harmonia…

Fiquei então ciente de que uma delas andava muito revoltada com sua situação, muitíssimo descontente e inconformada, sumamente preocupada, porque não se dava com os pais, que a tratavam com brutalidade, e, havia pouco, brigara e rompera com seu namorado e mil outros problemas daí decorrentes. Acrescentou ainda que vivia chorando em conseqüência de tudo isso. Compreende-se que, para ela, havia desabado o mundo… Os testes de sensibilidade que, em seguida, realizei, também revelaram ser ela uma sensível no mais alto grau, uma grande médium, como diriam os espíritas. O x do problema estava, pois, descoberto. Era ela que emitia uma força física, dirigida pelo inconsciente, chamada telergia, força essa transformada em calor, e por a problemática ser grande e intensa, o calor se transformou em fogo através de um organismo em forte desequilíbrio físico-psíquico…

Pois bem. Tratei de orientar e acalmar científica e religiosamente aquela dotada, que eu identifiquei como sendo a causadora dos incêndios;

dei as devidas instruções também a todos os membros da família, e retirei-me.

Como prova de que meu diagnóstico estava certo, os incêndios, a partir daquela hora, cessaram definitivamente” (pp. 81-83).

Eis outro caso significativo (obra citada, p. 46):

Um casal foi certa vez procurar o Pe. Edvino, o marido A. com 37 anos de idade, e a esposa E. com 33 anos.

Contaram que ouviam principalmente à noite, e com freqüência, barulhos estranhos no guarda-roupa do seu quarto de dormir. 0 filho pequeno do casal também percebia os ruídos e perguntava aos pais por que ocorriam. Estes davam uma resposta simples, que acalmava a criança.

Tais barulhos começaram quando a esposa A. conheceu um homem que, a todo custo, se queria casar com ela, garantindo que renunciaria a tudo para a possuir. Todavia, A., fiel ao compromisso conjugai, sempre recusara as propostas do pretendente. Este, porém, não desistia; mandava cartas, telefonava… mesmo consciente de que A. era casada. Depois de certo tempo cessou de incomodar, vendo frustrados os seus esforços.

Profundamente perturbado, o casal pedia uma solução para o problema, imaginando alguma infestação diabólica ou intervenção de espírito desencarnado.

Na verdade, não foi difícil ao parapsicólogo explicar os barulhos impertinentes. Com efeito; começaram desde que A. se viu assediada por um homem importuno, que lhe causava grande aflição e angústia. Ora essa problemática interior foi-se traduzindo em tempestade do ambiente, ou seja, nos ruídos que assustavam o casal; era de notar que eles se produziam geralmente à noite, quando o inconsciente da esposa se podia manifestar mais livremente, sem o controle do seu consciente. Embora o pretendente importuno tivesse desistido de sua insistência, A. ficou traumatizada e exteriorizava sua crise mediante a telergia e a psicocinesia. — O remédio, no caso, não estava em aplicar exorcismo nem em pedir passes espíritas, mas, sim, em tentar esquecer a causa do traumatismo que exercia sua influência sobre o psiquismo e o físico de A. Uma vez removida a imagem do passado angustiante, cessariam os efeitos causados portal reminiscência (consciente ou inconsciente).

Estas considerações podem bastar para dissipar qualquer ilusão a respeito dos fenômenos de assombração. Diante do maravilhoso, o primeiro ímpeto do observador é supor a intervenção de algum fator transcendental; todavia a reflexão serena e aprofundada evidencia que muitas das explicações “místicas” dadas ao maravilhoso são fantasiosas e devem ceder à elucidação racional dos fatos analisados.

APÊNDICE

A influência da novela “A VIAGEM” parece nítida no caso da pessoa que escreveu, do interior da Amazônia, uma carta à Redação de PR, carta da qual vão, a seguir, extraídos os segmentos mais interessantes:

“Eu tenho 27 anos. Sou casada há sete anos, e tenho dois filhos e um marido, que amo muito; enfim, somos uma família unida. Eu venho tendo sonhos, há muitos anos, que estão me deixando preocupada; sempre sonho com alguém querendo matar-me de algum modo; não é sempre o mesmo sonho. Mas tem uns que conseguem me matar no sonho. É impressionante como são verdadeiros. Eu sinto morrendo, saindo do meu corpo em detalhes; no sonho eu vejo o meu corpo morto e no sonho meu marido está sempre na hora da minha morte, e isto me deixa desesperada, e todas as vezes eu acordo chorando.

Meu pai me disse que fui muito doente quando renascida. Será que isto explica alguma coisa?

Me lembrei de um detalhe importante. Depois que eu morro, eu vejo o meu corpo e, junto de meu marido, há sempre pessoas próximas, como minhas irmãs e cunhadas. Eu estou tão perto e, ao mesmo tempo, estou numa vida diferente, como a gente vê na televisão os artistas, mas não conseguimos comunicar; assim no sonho eu vejo tão pertinho e não consigo comunicar com ninguém”.

Note-se, nesta carta, quanto segue:

1)    A missivista deve ter sido doente na infância, conforme o depoimento do pai. Terá sido doença nervosa? Doença que explicaria a angústia da senhora casada e dada a pesadelos?

2)    A missivista fala de “renascida”. Acredita ela ter vivido em outra encarnação, segundo o pensamento espírita? Terá sofrido influência espírita?

3)    A missivista se refere explicitamente aos artistas da televisão e à morte de alguém que julga sair do corpo e contemplar os sobreviventes, como ocorre nos relatos espíritas e esotéricos, aos quais a novela “A VIAGEM” faz eco.


[1] Em alemão, Polter significa barulho, e Geist, espírito. Donde Poltergeist é o espírito barulhento.

[2] PK designa a moção por faculdades psíquicas, ao passo que Psi-gama (PG) designa o conhecimento (gnosis) por vias diferentes das costumeiras (sensoriais); pode ser também chamado “percepção extra-sensorial”.





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