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Que é a verdade?

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 543/setembro 2007

Apologética

RELATIVISMO E VERDADE

Em síntese: O contato com religiões orientais tem induzido alguns teólogos católicos a relativizar a fé católica, chegando mesmo a dizer que Jesus foi apenas um fundador de religião como Buda, Confúcio ou Maomé. Todas as religiões seriam equivalentes entre si. A estas afirmações se opõe a doutrina católica, que professa a Divindade de Jesus Cristo e a singularidade da sua obra salvífica; Cristo com sua Igreja é o único Mediador entre Deus e os homens. A revelação trazida por Jesus Cristo a este mundo não é simplesmente uma faceta da Verdade, mas é a plenitude da Verdade destinada à salvação de todos os homens.

*   *   *

O contato com povos orientais, especialmente a Índia, tem sugerido a alguns teólogos católicos o relativismo religioso: o cristão teria que completar sua fé assumindo proposições de outras correntes religiosas. Vamos, a seguir, expor o problema mais detidamente, ao que acrescentaremos a explanação do pensamento católico a tal respeito.

1. O Problema

Na década de 1850 começaram a aparecer, entre os teólogos, novas teorias para explicar o relacionamento do Catolicismo com as correntes religiosas não católicas. A evolução do pensamento de tais autores pode ser compendiada nos seguintes termos: do eclesiocentrismo ao cristocentrismo; do cristocentrismo ao teocentrismo; do teocentrismo ao reinocentrismo. Expliquemos os vocábulos citados:

Outrora a Igreja terá sido o centro da vida católica, de modo que se dizia: “Fora da Igreja não há salvação”. É o que se chama “eclesiocentrismo”.

Tal concepção foi alargada pelo “cristocentrismo”: posta a Igreja de lado, Cristo, sem a sua Igreja confiada a Pedro e seus sucessores, seria o único sustentáculo da piedade cristã.

Tal noção foi ainda ampliada ao se dizer que bastaria crer em Deus para alcançar a salvação. Todas as religiões seriam, desta forma, válidas. É o que se chama “teocentrismo”.

Este foi ainda mais dilatado pelo reinocentrismo: todas as religiões seriam caminhos que levariam a um “Reino de Deus” a ser realizado no fim dos tempos.

Os mesmos autores admitem duas outras proposições, que fundamentam a evolução do seu pensamento. Ei-las:

a)  Distingue-se entre o Logos (o Verbo ou a segunda Pessoa da SSma. Trindade) e Jesus Cristo. O Logos, dizem, atua no mundo inteiro, de modo que qualquer manifestação religiosa pode ser tida como inspirada pelo Verbo de Deus. Este quis aparecer visivelmente na figura de Jesus Cristo. “Cristo” é um título que não salva; quem salva, é o Logos, que quis ser reconhecido pelos cristãos como Jesus Cristo. O Logos, que cultuamos como Cristo, age em todas as religiões. É o que se chama “Logocentrismo”.

b)  Há também quem diga que o Espírito Santo é que atua no mundo inteiro e em qualquer religião. Os cristãos, dizem, recebem de Jesus Cristo a graça da salvação, graça esta que os não cristãos recebem através do Espírito (pneuma) Santo; é o que se chama “pneumacentrismo”. A ação do Espírito Santo no mundo não estaria necessariamente ligada à obra redentora de Cristo.

Destas concepções redundou o relativismo religioso: Ninguém conhece plenamente a verdade de Deus, mas cada corrente religiosa possuiria apenas uma face da Verdade.

Em conseqüência foi-se perdendo o zelo missionário ou o interesse por apregoar a fé católica a povos não católicos e pagãos. A Missão é considerada um desrespeito às tradições culturais de um povo; é um gesto de imperialismo, que deve acabar, de tal modo que a tarefa dos missionários seria apenas a de cuidar da civilização de povos primitivos, oferecendo-lhes escolas, hospitais, trabalho industrial…, sem tocar em matéria religiosa… e, muito menos ainda, sem falar de conversão à fé católica.

O diálogo ecumênico (entre católicos e cristãos não católicos) e o diálogo inter-religioso (entre católicos e não cristãos) não teria em vista a conversão ao Catolicismo, mas uma procura de convergência dos dialogantes a uma conversão comum e mais profunda a Deus e aos homens.

São estas as principais linhas doutrinárias do relativismo religioso, que tende a penetrar cada vez mais na esfera do próprio Catolicismo.

Perante tais afirmações, pergunta-se:

2. Que dizer?

Sejam propostas seis considerações:

2.1. Para a verdade…

O ser humano foi feito para a verdade. Traz em si a sede natural da verdade. Ora a natureza, sábia como é, não pode frustrar o homem. Não raro a pessoa humana pode errar, mas, reconhecendo seus erros, vai-se aproximando da verdade, que lhe é dado atingir nos pontos essenciais à orientação de sua vida.

2.2.  Verdade religiosa

Estas ponderações valem principalmente no tocante à religião. Verdade é que em todos os seres humanos existe uma religiosidade natural, que leva a reconhecer um Ser Superior, do qual o homem depende e ao qual ele dirige suas preces. Essa religiosidade natural é acompanhada de uma lei moral natural; todo homem sabe que não deve matar um inocente, não deve roubar, não deve caluniar… Neste plano todos os homens são iguais entre si. Mas, ao concretizarem a sua religiosidade num Credo, os homens divergem entre si: professam uns o politeísmo, outros o panteísmo, e mais outros o monoteísmo. São formas de crer incompatíveis entre si, portanto não podem provir da inspiração divina do Logos (Verbo) ou do Pneuma (Espírito).

Dessas três formas somente o monoteísmo obedece às leis da lógica e, dentro do monoteísmo, o cristianismo é a modalidade correta, pois o judaísmo é a expectativa do Messias que já veio, e o islamismo é uma mescla de judaísmo, cristianismo e religiões árabes antigas. Dentro do Cristianismo o Catolicismo é o único ramo que procede diretamente de Cristo e dos Apóstolos sem interrupção.

Não se pode dizer que Deus, perfeitíssimo como é, não pode ser reconhecido pelo homem. Certo é que não conhecemos Deus como conhecemos nossos semelhantes, isto é, de maneira unívoca, mas conhecemos Deus através das perfeições esparsas pelo mundo e pela humanidade; assim os conceitos de amor, bondade, sabedoria, justiça… que se aplicam aos homens, aplicam-se também a Deus, não de maneira unívoca, mas em termos análogos: Deus é amor, mas não é amor como o é o homem; Ele é amor em grau perfeito; Deus é bondade, mas não como o homem é bondade, e sim de maneira perfeita. A verdade que vale para o intelecto humano vale também para Deus; assim para Deus, como para nós, 2 + 2 = 4; Deus não pode fazer um círculo quadrado, pois isto não é lógico nem para nós nem para Ele. Assim formamos um conceito de Deus que é verídico e sólido.

2.3.  Jesus Cristo

Jesus não é uma manifestação do Logos como Buda e Maomé teriam sido manifestações de Deus, segundo certos teólogos. – Ele é Deus de Deus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Ele não é o Salvador de uma parte apenas da humanidade, mas é o único Salvador de todos os homens. Diz o Concílio do Vaticano II: “O Verbo de Deus, por quem foram feitas todas as coisas, encarnou-se a fim de, como homem perfeito, salvar todos os homens e recapitular todas as coisas” (Gaudium et Spes 45).

De modo semelhante o Espírito Santo (Pneuma) é o Santificador dado por Cristo para agir em todos os homens, aplicando-lhes as graças do Redentor. Não há ação do Espírito Santo independente da de Cristo.

2.4.  Salvação fora da Igreja?

A resposta é a seguinte: há um só Salvador Jesus Cristo, que por meio da sua Igreja redime todos os homens. Muitos o reconhecem e podem salvar-se, filiando-se à Igreja visível. Outros, porém, sem culpa própria, ignoram a pessoa e a obra de Jesus Cristo; também podem salvar-se, se guardam fidelidade à sua consciência cândida e sincera. Pertencem à Igreja invisível; salvam-se também mediante Cristo e a Igreja, única via de salvação, oferecida também aos não cristãos que professam o erro julgando ser o erro a verdade; ver Constituição Lumen Gentium no 16.

2.5.  Missão entre os povos

O anúncio do Evangelho aos não cristãos conserva ainda hoje a sua validade e a sua necessidade: “Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2, 4). A Igreja é missionária. Ela tem o direito de apregoar o Evangelho a todos os homens, sem forçar alguém a abraçá-lo ou sem fazer proselitismo (“comprando” a adesão dos ouvintes com promessas de bem-estar humano).

Nos encontros ecumênicos e nos coloquios inter-religiosos, a Igreja reconhece a paridade existente entre os dialogantes, paridade quanto à dignidade das pessoas que dialogam e merecem respeito; todavia não pode reconhecer paridade de conteúdos doutrinários, pois Jesus Cristo é inconfundível e não pode ser equiparado aos fundadores de outras religiões.

2.6.  A Declaração “Dominus lesus” (O Senhor Jesus)

O que acaba de ser dito corresponde exatamente à doutrina da Declaração “Dominus Jesus”, promulgada a 6 de agosto de 2000. Este documento suscitou críticas e oposição, pois afirma a unicidade salvífica de Jesus Cristo e da Igreja, guardando respeito por outras correntes religiosas. A Igreja e os filhos da Igreja precisam de ter coragem para proclamar a veracidade da mensagem católica; isto não é simpático, mas é uma atitude coerente. Sou católico porque creio que o Catolicismo é o autêntico caminho que leva a Deus; não desprezo nem desrespeito os que assim não pensam, mas não devo ter vergonha de dizer que tenho certeza de estar professando a verdade, sem assumir posições de falsa humildade, dizendo: “Não sei… Vamos procurar juntos… Vamos somar nossos modos de ver”. A coragem da coerência é que falta. Daí o relativismo religioso, que leva à insegurança e ao vazio, tirando ao homem boas razões para lutar e sofrer por um ideal.

A temática deste artigo pode ser estudada com mais minúcias mediante o livro “Bento XVI adversus Haereses (Contra as Heresias)” da autoria de D. João Evangelista Martins Terra, Bispo Auxiliar de Brasília. O autor é severo em suas avaliações, mas põe às claras os perigos do relativismo que ameaçam a Verdade revelada por Jesus Cristo.

A mesma temática é explanada pelo Cardeal Joseph Ratzinger (hoje Papa Bento XVI) em termos mais eruditos no seu livro recentemente traduzido para o português com o título “Fé, Verdade, Tolerância. O Cristianismo e as grandes religiões do mundo” (Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimon Luili).

Dom Estêvão Bettencourt





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