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O ateu pergunta: “EXISTIU JESUS? PROVE-O!”

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 527/Maio 2006


Em síntese: O cidadão italiano ateu Luigi Cascioli processou o padre Enrico Righi para que prove a existência de Jesus, pois o ateu julga que o sacerdote e, com ele, a Igreja estão abusando da credulidade popular, apregoando alguém que nunca existiu. Em resposta deve-se di­zer que a crítica mais rígida não duvida da existência de Jesus, mas põe em xeque a sua Divindade. A existência de Jesus é comprovada por ampla documentação, que começa no século I com a redação dos Evangelhos. Quem questiona a existência de Cristo, com mais razão questionará a de Alexandre Magno, Platão, Aristóteles…

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Aos 5/3/06 o programa “Fantástico” da TV Globo transmitiu uma notícia sensacional, que vai, a seguir, reproduzida tal como veio pela internet.

A NOTÍCIA SENSACIONAL

JESUS CRISTO EXISTIU?

Em uma paisagem de fábula, entre colinas e ruínas criadas pelo vento, um duelo foi declarado. Luigi Cascioli, o acusador, foi seminarista na juventude. Hoje é ateu e vive cercado de livros anticlericais. Em uma igreja de Bagnoregio, na Itália, vive o acusado. Monsenhor Enrico Righi é um padre de paróquia e passa as tardes diante da cruz. Os dois estuda­ram no mesmo seminário nos tempos duros do pós-guerra. Com mais de 70 anos, Luigi e Enrico se encontraram de novo num tribunal. Luigi de­nunciou Enrico e toda a teoria cristã.

A denúncia foi apresentada na Procuradoria da República em se­tembro de 2002 e causou embaraço entre os moradores de Bagnoregio. O pároco da cidade foi acusado de enganar o povo por pregar que Jesus Cristo realmente existiu e que nasceu em Belém, de uma virgem de nome Maria.

“Eu denunciei a Igreja, na figura do padre, por abuso da credulida­de popular, da ignorância do povo”, explica Luigi.

“Pareceu-me estranho. Nunca ninguém tinha me chamado de ‘embrulhão’. Eu sou um entre 30 mil párocos na Itália que pregam a mes­ma coisa. No mundo, somos 500 mil párocos e cremos na mesma coisa. Pareceu-me absurdo, fiquei muito surpreso”, conta padre Enrico.

Luigi diz que não discute teologia, mas história, e que não há pro­vas históricas da existência de Jesus, apenas relatos feitos por cristãos. O ex-seminarista sustenta que a vida de Jesus foi inventada, inspirada na história de outra pessoa.

“Tudo que se refere a Cristo foi tirado da vida de João de Gamala, que era filho de Judas Galileu e marido de Maria Madalena. Segundo cálculo dos cristólogos, João de Gamala foi crucificado entre os anos 37 d.C. é 42 d.C.”, diz Luigi.

A fonte mais importante do acusador é um historiador da Antigüida­de, Flávio Josefo, que nas suas obras, de fato, narrou partes da vida de João de Gamala.

“Não há motivo para incriminar uma pessoa porque ela fala de outra. Eu falo bem de Jesus; ele fala mal. Estamos quites. É difícil fazer pesquisas de quem viveu há dois mil anos”, diz padre Enrico.

O acusador também cita dois apóstolos de Cristo, Pedro e Tiago Menor, para reforçar a tese de que Jesus não existiu. “Nós temos o teste­munho escrito por Flávio Josefo de que Pedro e Tiago foram mortos no ano de 44 d.C, acusados de serem rebeldes revolucionários. Como a Igreja pode dizer que no ano 60 d. C. Pedro foi a Roma e se tornou o primeiro Papa?”, questiona Luigi.

“Nunca pensei em indagar a existência de Deus. Eu acredito e pron­to. Se ele é ateu, eu não o denuncio por isso. Não entendo por que ele me denunciou só porque sou cristão”, diz o acusado.

No ano passado, padre Enrico foi convocado pela Justiça e teve que contratar um advogado de defesa. Em janeiro aconteceu a primeira sessão do julgamento, no Palácio da Justiça de Viterbo, perto de Bagnoregio.

O caso ficou conhecido como o “Tribunal de Jesus” e mobilizou a Corte da cidade de Viterbo. Uma sala chegou a ficar repleta de curiosos que queriam acompanhar o julgamento de Cristo, mas o juiz arquivou o caso. “Agora vamos entrar com um recurso na Corte de Estrasburgo”, anuncia Luigi.

Esperando ser chamado pela Corte Européia, Luigi prepara seu dossiê de muitas páginas contra a Igreja. Padre Enrico prefere o silêncio e o recolhimento na companhia do Cristo e dos santos.

“Se a sentença não for satisfatória, vou recorrer. E se não der cer­to, estou disposto a ir até o Tribunal Internacional de Haia”, declarou Cascioli, na conversa com a BBC Brasil.

QUE DIZER?

No século XIX a crítica radical chegou a negar a própria existência de Jesus Cristo, que alguns quiseram identificar com uma figura mitoló­gica. Verdade é que, em nossos dias, tal hipótese quase não encontra seguidores. Como quer que seja, examinemos os documentos-fontes que atestam a realidade histórica de Jesus Cristo.

1. O ambiente em que viveu Jesus

À diferença do que se dá com outros chefes religiosos, o quadro em que Jesus viveu é eminentemente histórico. O Império Romano do século I é-nos bem conhecido. Grandes escritores, cujas obras chega­ram até nós, estavam em vida: Tito Lívio, Séneca, Virgílio…

Um grande número de personagens que acompanharam Jesus é iluminado por documentos não cristãos: César Augusto, Tibério César, Pôncio Pilatos, Herodes, Filipe, os sumos sacerdotes Anãs e Caifás, João Batista…

Além disto, os costumes e a cultura dos homens que cercavam Jesus, correspondem ao que fontes não cristãs referem a respeito da Palestina.

Jesus, portanto, é uma figura bem situada no tempo e no espaço, o que não ocorre com Orfeu, Osíris, Mitra…

Os observadores, porém, estranham que a respeito dele tenham tão pouco falado os cronistas romanos. O fato deixa de ser surpreenden­te desde que se pondere que Jesus viveu num rincão do Império Roma­no (a Palestina). Ademais a obra de Jesus pôde, a princípio, não parecer mais do que um motim dos muitos que agitavam a Palestina no século I: assim o livro dos Atos dos Apóstolos 5, 36s nos refere o levante de um certo Teudas e o de Judas Galileu, que foram frustrados. Somente quan­do o Cristianismo penetrou no Império Romano e começou a sacudir as populações e mudar os costumes é que Jesus e os cristãos chamaram a atenção do grande público.

Ademais é de notar o seguinte: os discípulos de Cristo, a princípio, eram chamados Nazarenos. Foi somente por volta de 48 / 49 em Antioquia da Síria, território pagão, que receberam o nome de cristãos (cf. At 11, 26). Ora nenhum dos adversários do Cristianismo nos primeiros séculos afir­mou que Jesus não existiu; nem mesmo Celso, filósofo eclético, que es­creveu veementemente contra os cristãos, acusando-os e zombeteando-os a vários títulos, ousou declarar: “O vosso Cristo nunca existiu!”

Apesar de quanto acaba de ser observado, encontramos testemu­nhos de escritores romanos relativos a Jesus.

2. Os testemunhos dos escritores romanos

São três os autores que, de algum modo, se referem a Cristo: Táci­to, Suetônio e Plínio o Jovem. Escreveram no intervalo que vai de 110 a 120.

2.1. Tácito

Tácito foi um historiador que soube exercer espírito crítico e se mostrou honesto em seus relatos. Escreveu em seus Anais, por volta de 116, a respeito do incêndio de Roma ocorrido em 64:

“Um boato acabrunhador atribuía a Nero a ordem de pôr fogo à cidade. Então, para cortar o mal pela raiz, Nero imaginou culpados e en­tregou às torturas mais horríveis esses homens detestados pelas suas façanhas, que o povo apelidava de cristãos. Este nome vem-lhes de Cris­to, que, sob o reinado de Tibério, foi condenado ao suplício pelo procura­dor Pôncio Pilatos. Esta seita perniciosa, reprimida a princípio, expandiu-se de novo não somente na Judeia, onde tinha a sua origem, mas na própria cidade de Roma” (Anais XV 44).

Tácito conta, a seguir, as horríveis torturas infligidas aos cristãos e se mostra contrário a esse desumano procedimento. As referências pou­co elogiosas aos cristãos mostram que só os conhecia por ouvir dizer e compartilhava as opiniões do seu tempo. Essa hostilidade mesma torna mais valiosa a breve notícia que ele nos transmite a respeito de Cristo. Pergunta-se: de onde Tácito recebeu as informações concernentes a Cristo? - Pode-se crer que as tenha recebido de Plínio o Velho, cujas Histórias ele muito utiliza. Plínio o Antigo fez parte do estado-maior de Tito, que em 70 invadiu Jerusalém; pôde assim colher dados sobre Jesus na própria Palestina e os terá passado para o historiador Tácito.

2.2. Suetônio

Poucos anos depois, em 120, Suetônio, também hábil historiador, escreveu a Vida dos Doze Césares, em que cita duas vezes os cristãos: uma primeira vez para confirmar que eram perseguidos desde os tempos de Nero. Na segunda vez, referindo-se ao reinado de Cláudio (41-54), diz que este “expulsou de Roma os judeus, que, sob o impulso de Cresto, se haviam tornado causa freqüente de tumultos” (Vita Claudii XXV). A infor­mação coincide com a de Atos 18, 2; a expulsão deve ter ocorrido por volta de 49/50. Chrestós é a forma grega equivalente a Christós, que traduz o hebraico Messias (= Ungido). Suetônio, mal informado, julgava que Cristo se achava em Roma, instigando as desordens.

É lamentável que Suetônio nada tenha dito sobre Jesus ao tratar de Tibério. Mas a notícia registrada basta para provar que, por volta de 50, isto é, menos de vinte anos após a Ascensão, havia cristãos em Roma que, por sua pregação, perturbavam a colônia judaica.

2.3. Plínio o Jovem

Em 111 chegou à Bitínia e ao Ponto, províncias da Ásia Proconsular (Turquia de hoje), Plínio o Jovem, com o título de Legado Imperial. Era homem de letras; uma grande parte de seus escritos são cartas; como bom administrador, guardava uma cópia dos relatórios enviados ao Im­perador Trajano de modo que, apesar do segredo dos arquivos imperi­ais, temos conhecimento de boa parte dessa documentação.

Plínio era um homem sério e inteligente. Em 112 enviou a Trajano uma carta minuciosa a respeito dos cristãos. Recebera denúncias contra eles, prendera vários, submetera alguns a torturas, inclusive duas diaconisas; nada, porém, fora apurado que lesasse a boa ordem cívica. Ao contrário, podia dizer que os cristãos se difundiam cada vez mais e “estavam habituados a se reunirem dia determinado, antes do nascer do sol, e cantar um cântico a Cristo, que eles tinham como Deus” (Epísto­las, 1 X 96). Deste testemunho depreende-se que, desde os primeiros decênios do Cristianismo, o Senhor Jesus era louvado como Deus.

Plínio atestava que aquela boa gente cristã se comprometia, com juramento, a não roubar, não mentir, não cometer adultério – o que não podia ser passível de pena. Acontecia, porém, que os sacerdotes dos deuses se queixavam: os templos se esvaziavam; os vendedores de car­ne destinada aos sacrifícios deixavam de lucrar. Sendo assim, Plínio per­guntava ao Imperador o que devia fazer frente aos cristãos; havia de puni-los somente por serem cristãos? – Vê-se que Plínio era, de certo modo, simpático aos discípulos de Cristo.

2.4. Um falso depoimento

Narram os historiadores uma história que eles atribuem a falsários piedosos. Um certo Trebomus Rufinus, senador e antigo ministro da ci­dade de Viena (Vindobona) na Gália, teria escrito a C. Plínio Cecílio Se­cundo em 109 ou 110 o seguinte:

“Afirma-se que Tibério propôs ao Senado admitir o Cristo na cate­goria dos deuses; mas, examinado cuidadosamente o assunto, chegou-se à convicção de ser perigoso admitir um culto cuja base era a igualda­de absoluta entre os homens. Além disto, parecia inconveniente endeusar um indivíduo punido com o suplício dos escravos, autorizado por um Pro­curador Romano”.

Tal notícia foi transcrita da obra de Daniel-Rops: “Jesus no seu Tem­po”. Porto 1953.

2.5. Um relatório de Pilatos a Tibério?

S. Justino, mártir, escreveu em 150 aproximadamente a sua “Apo­logia do Cristianismo” dedicada ao Imperador Antonino Pio e a seu filho Marco Aurélio. Alude aos “Atos de Pilatos”, um relatório enviado por Pôncio Pilatos a Tibério sobre Jesus Cristo. Todavia não se pode perceber da referência se Justino conheceu pessoalmente esses escritos ou apenas supunha a existência dos mesmos. Esta segunda hipótese é mais veros­símil, pois, como observa Tácito, os arquivos imperiais eram secretos e ninguém os podia consultar.

Cinqüenta anos depois, Tertuliano, grande apologista cristão, en­tendeu os dizeres de Justino no sentido de uma afirmação da existência dos “Atos de Pilatos”; declara que o processo e a morte de Jesus foram por Pilatos relatados ao Imperador.

Na verdade, foram tais “Atos” forjados por cristãos imaginosos, os quais se enganaram colocando o nome do Imperador Cláudio (41-54) em lugar do nome de Tibério (14-37).

2.6. Retrato de Jesus Cristo

Existe uma declaração da personalidade de Jesus atribuída a Públio Lêntulo, governador da Judeia, antecessor de Pôncio Pilatos, em carta dirigida a Tibério. É obra medieval, destituída de autenticidade. Ei-la:

“A pessoa de Jesus é de nobre estirpe. Sua aparência é de uma beleza fora do comum, que jaz em sua majestosa maneira de ser. Usa seus brilhantes cabelos de cor castanha à moda nazarena, divididos ao meio, cobrindo os ombros. A tez de seu rosto é alva e sem rugas; sua fronte é lisa e bela. Nada a acrescentar sobre o formato de seu nariz e sua boca. Sua barba curta e espessa, usa-a exatamente ao estilo nazareno, sem apresentar qualquer cunho excêntrico. Os olhos são se­melhantes aos raios do Sol e, por motivo de seu intenso brilho, é impos­sível fitar seu rosto por tempo prolongado. Suas mãos e seus braços são bem formados. É amado por todos; é austero, contudo alegre. Usa san­dálias e anda sempre com a cabeça descoberta. Na conversação é muito amável; porém, raríssimas vezes deixa-se levar por uma palestra, e, quan­do Ele está com a palavra, mantém-se em atitude discreta. Sua aparên­cia é a mais bela possível de imaginar-se, semelhante à sua Mãe, que é a mais formosa das mulheres vistas aqui nesta região. É considerado um prodígio em sabedoria por todos os habitantes da cidade de Jerusalém. Nunca estudou; no entanto, conhece toda a ciência. Comenta-se que nunca se ouviu falar, neste país, sobre outra pessoa que o igualasse. Na verdade, os hebreus informam que jamais ouviram conselhos semelhan­tes, instruções tão elevadas como as que são ensinadas por este Cristo.

Muitos judeus o consideram divino e crêem n’Ele, enquanto outros vêm a mim para condená-lo, por estar em contradição com Vossa Majestade.

É notório que jamais infligiu qualquer mal a quem quer que seja, e que somente pratica o bem. Todos os que o conhecem e com Ele mantêm relações, dizem que d’Ele receberam curas e benefícios.

Publius Lentulus”

3. Documentos judaicos

3.1. A Tradição rabínica

Os judeus posteriores a Cristo deixaram-nos o Talmud, coletânea de leis e comentários históricos devidos aos rabinos. Apresentam-nos passagens referentes a Jesus. O valor de tais testemunhos está em que, embora se oponham à tradição cristã, não negam a existência de Cristo, mas procuram interpretá-la de maneira a ridicularizar os fundamentos da fé cristã (quem se daria ao trabalho de desfigurar um personagem lendá­rio?). Eis alguns espécimens mais significativos dessa tradição:

O tratado Sanhedrin 43a do Talmud da Babilónia refere:

“Na véspera de Páscoa suspenderam a uma haste Jesus de Nazaré. Durante quarenta dias um arauto, à frente dele, clamava: ‘Merece ser lapi­dado, porque exerceu a magia, seduziu Israel e o levou à rebelião. Quem tiver algo para o justificar, venha proferi-lo!’ Nada, porém, se encontrou que o justificasse; então suspenderam-no à haste na véspera de Páscoa”.

Este texto parece envolver contradição: Jesus fora condenado ao apedrejamento, mas a pena aplicada foi a de pender do lenho (crucifixão). A incoerência pode ser explicada pelo fato de que o apedrejamento era o castigo judaico infligido aos magos e idólatras; di­zendo, pois, que Jesus fora condenado à lapidação, os judeus procura­vam justificar a condenação. Contudo a crucifixão de Jesus era fato de­masiado arraigado na tradição judaica para que se pudesse dizer que morrera apedrejado. - Notemos também a acusação de magia feita a Jesus: supõe que o Senhor tenha realizado milagres (os milagres de que fala o Evangelho); interpreta-os, porém, em sentido pejorativo como as obras diabólicas de Cristo (cf. Mc 3, 22). Outro pormenor interessante: as narrativas evangélicas dão a entender que o processo de Jesus se reali­zou às pressas. Ora o Talmud admite o inverossímil intervalo de quarenta dias entre a condenação e a execução, intervalo oferecido às testemu­nhas para se manifestarem - o que vem a ser uma tentativa de reabilitar os juízes de Jesus.

Em Aboda Zara 40d Jesus é dito Ben-Pandara ou Ben Panthera, filho de Pantera. Esta expressão aramaica parece ser a deformação do grego huiós tes parthénou (filho da Virgem), título com que os cristãos designavam Jesus; segundo a intenção polêmica dos talmudistas, o subs­tantivo comum parthénos foi transformado em nome próprio e passou a designar o pai ilegítimo que os rabinos atribuíam a Jesus (Maria estaria oficialmente casada com um homem cujo nome no Talmud é Pappos ou Stada). Teríamos nesta passagem rabínica uma confirmação da Antigüi­dade da fé no nascimento virginal de Jesus.

3.2. Flávio José

Fora da tradição rabínica, existe o historiador judeu Fávio José (37-95), que nas suas “Antigüidades Judaicas” se refere a Jesus:

“Por essa época apareceu Jesus, homem sábio, se é que há lugar para o chamarmos homem. Porque ele realizou coisas maravilhosas, foi o mestre daqueles que recebem com júbilo a verdade, e arrastou mui­tos judeus e gregos. Ele era o Cristo. Por denúncia dos príncipes da nossa nação, Pilatos condenou-o ao suplício da cruz, mas os seus fiéis não renunciaram ao amor por ele, porque ao terceiro dia ele lhes apa­receu ressuscitado, como o anunciaram os divinos profetas junta­mente com mil outros prodígios a seu respeito. Ainda hoje subsiste o grupo que, por sua causa, recebeu o nome de cristãos” (XVIII, 63s).

Este testemunho, tão elogioso em relação a Jesus, está sujeito às dúvidas dos críticos. Os louvores a Cristo podem ter sido interpolados por mãos cristãs, mas é certo que Flávio José assim atesta a sua convic­ção de que Jesus fora personagem histórico.

Na verdade, não é de crer que o texto como ele hoje é, seja da pena de Flávio José; se este tivesse escrito tais dizeres, ter-se-ia feito cristão. Sabe-se, porém, que Flávio José, bajulador do Império Romano, escreveu que o verdadeiro Messias, aguardado por Israel, era incontes­tavelmente Vespasiano. Foi em homenagem a este que acrescentou ao seu nome judaico José o nome do Imperador: Flávio.

Eis como a crítica tem procedido nos últimos três séculos:

Há quem negue a autenticidade das frases em negrito, pois pare­cem cortar o fio do discurso. Replicam outros que o estilo é exatamente o de Flávio José. E apóiam-se no fato de que Eusébio, bispo de Cesaréia no século IV, conhecia o texto e o aceitava. Os adversários contrapõem que os primeiros escritores da Igreja ignoravam o texto e afirmavam que Flávio José não aceitava o Messias Jesus.

Autores católicos como Batiffol e Lagrange estão de acordo com o racionalista Guignebert ao crerem que o texto de Flávio José sofreu interpolações cristãs; todavia há críticos racionalistas e protestantes como Harnack e Burkitt que defendem a autenticidade.

Giuseppe Ricciotti prefere a sentença já proposta pelo crítico libe­ral Theodor Reinach segundo o qual o texto é, fundamentalmente, de Flávio José, mas foi “melhorado” no século II, por algum copista cristão.

Flávio José, nas suas “Antiguidades Judaicas” XX, 9.1, refere ain­da uma notícia que atribui a Jesus o título de Messias.

“Anano convocou em juízo o Grande Conselho e fez comparecer diante dele um homem, de nome Tiago, irmão de Jesus, que se chama Cristo”.

A referência, apesar de breve, tem sua importância por mencionar o título de Cristo (= Messias).

Resta examinar os documentos cristãos relativos a Jesus, que L. Cascioli pode julgar preconceituosos. São, antes do mais, os escritos do Novo Testamento, entre os quais sobressaem os quatro Evangelhos (Mt, Mc, Lc, Jo). A crítica reconhece geralmente que datam do século I.

A credibilidade desses escritos já foi comprovada em PR 427/1997, pp. 539ss; 318/1988, pp. 489ss; 210/1977, pp. 264ss.

4. Conclusão

É difícil compreender que alguém possa questionar a existência de Jesus Cristo. Esta é evidente não só pela vasta literatura que trata do assunto desde o século I, mas também pela obra ou corrente de pensa­mento chamada “Cristianismo”. Homens e mulheres em grande número morreram por causa de Jesus Cristo tido como figura histórica. Não hou­ve quem lhes dissesse estarem a se sacrificar por nada. Com razão se diz em linguagem popular: “A mentira tem pernas curtas”. A mentira “Je­sus” não teria durado tanto tempo.

O bom senso – e não somente a fé – assegura que não será difícil responder aos tribunais movidos pelo cidadão Luigi Cascioli.





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