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Confusão: OS VÉTERO-CATÓLICOS: QUEM SÃO?

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 527/Maio 2006

Confusão:

OS VÉTERO-CATÓLICOS[1]: QUEM SÃO?

Em síntese: Os velhos-católicos são católicos que não aceitaram a definição da infalibilidade do Papa em matéria de fé e de Moral, defini­ção proferida pelo Concílio do Vaticano I (1870). O respectivo clero é casado e celebra validamente a S. Missa, pois estão na linha da suces­são apostólica. – Bem diverso é o caso de padres católicos que deixam o ministério (com ou sem a devida autorização) para se casar: estes não se tornam membros da comunidade vétero-católica, que, juridicamente in­depende da Igreja Católica. Há, pois, duas situações bem diferentes uma da outra: a dos padres vétero-católicos que não pertencem à comu­nhão da Igreja Católica, e a dos padres católicos, que permanecem na comunhão da Igreja Católica, embora em condições, muitas vezes, ilegais.

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Em fins de 2005 a imprensa publicou notícias que deixaram confu­sos muitos leitores. Em síntese foi dito que o padre católico desejoso de se casar é enviado pela autoridade da Igreja Católica a esse seu ramo dito “dos Velhos-Católicos”; onde se podem casar e continuam a exercer seu ministério. – Vamos esclarecer o assunto, começando por transmitir as notícias colhidas no O IMPARCIAL do Maranhão aos 31/12/2005.

1. O problema

Lê-se no periódico O IMPARCIAL, de São Luís do Maranhão aos 31/12/05:

“ E a praia do Olho d’Água continua sendo o cenário preferido para muitos festejarem a chegada do ano-novo. Desta vez a famosa praia será palco da primeira missa celebrada pelos padres da igreja Vétero-Católica. A expectativa é que as pessoas que estejam na praia na hora da grande virada possam direcionar seus pensamentos a Deus e pedir mui­ta paz para 2006.

Segundo os representantes da igreja Vétero-Católica, os padres José Caetano Cardoso de Souza e José Maria de Andrade, a missa terá início às 23h30, para que às 00h seja o ápice da celebração. ‘À meia-noite esta­remos no momento da consagração, com o vinho e a hóstia sagrada cele­brando a vida para todo o Maranhão’, disse o padre Caetano.

Apesar de não ser conhecida do público, esta vertente da igreja católica existe desde 1889, com origem na Holanda. Chegou ao Brasil na década de 30 e sua sede, a qual possui até um futuro arcebispo fica em Curitiba (PR). A igreja, que ao pé da letra significa a igreja dos “Velhos Católicos” é conhecida por ser uma congregação de padres casados, ou seja, os padres que saíram da igreja dita “tradicional” por infringir uma das leis do Vaticano, o celibato.

Apesar de não fazerem mais parte da tradicional igreja católica ro­mana, os padres, por possuírem a vocação e a ordenação, continuam cumprindo com obrigações de representantes de Deus. Segundo o padre Caetano, os padres da Vétero-Católica podem fazer tudo o que um padre ‘tradicional’ faz. ‘A Igreja é reconhecida pelo Vaticano. Só não é conheci­da da grande massa porque acho que a igreja católica romana tem medo de perder seu poder’, comentou.

O reconhecimento é tão certo que no momento que um padre saí do grupo da igreja católica, pode recorrer ao Vaticano, a um Conselho para que este o encaminhe a esta vertente e possa ser reconhecido por um padre máximo, que tem o mesmo poder de um arcebispo tradicional. As pessoas que nos conhecem preferem assistir às nossas missas, fazer seus casamentos conosco. As pessoas estão insatisfeitas com os rumos da tra­dicional igreja católica, com este tanto de escândalos que estão aí “.

Para elucidar a questão, começaremos por expor quem são os velhos-católicos.

2. Velhos-Católicos: origem e organização

A quarta sessão do Concílio do Vaticano I (1870) definiu a infalibili­dade do Papa e seu primado de jurisdição sobre a Igreja inteira. O texto proposto à discussão dos conciliares foi debatido de março a julho. A assembléia se dividiu em dois campos: a grande maioria julgava a defini­ção oportuna e necessária (eram apoiados por fiéis franceses ditos “ultramontanos”, pois ultrapassavam a cordilheira dos Alpes para aderir a Roma); os demais eram contrários à definição; destes, poucos se opu­nham ao dogma como tal; outros negavam apenas a oportunidade de o proclamar, por causa das reações que isto poderia provocar. Entre os adversários da definição cita-se o Bispo Strossmayer, já apresentado em PR 477/2002, pp. 529.

O sacerdote bávaro (alemão) João José Inácio von Döllinger não participou do Concílio. Era favorável a criar Igrejas nacionais autocéfalas – tese esta que ele propagou através de seus escritos publicados sob os nomes de Janus, Quirinus e em seu próprio nome.

Após a definição da infalibilidade (18/07/1870), continuou a mani­festar-se hostil ao Papado, que ele julgava desnecessário. A sua posição professada publicamente valeu-lhe a excomunhão da parte do arcebispo de Munique em 1871 – censura esta que em 1872 atingiu outros profes­sores de Faculdades alemãs, por se terem agregado a Döllinger. Aos poucos, esses adeptos do mestre, à revelia do próprio mestre, resolve­ram fundar uma Igreja própria, cujo chefe era o professor João Frederico von Schulte, de Praga. A partir de 1872 foram sendo criadas paróquias de “Velhos-Católicos”. Esta designação se deve ao fato seguinte: quan­do o arcebispo de Munique voltou de Roma, após o Concílio, convidou Inácio von Döllinger “a trabalhar para a Santa Igreja”; este respondeu secamente: “Sim, para a antiga Igreja!” – “Há uma só Igreja, replicou o arcebispo, não existe nova nem antiga Igreja!” – “Mas fizeram uma nova!”, retrucou o professor. Por conseguinte Döllinger pertencia à velha Igreja; resolveram também pedir um Bispo para si em 1872 na pessoa do pro­fessor de Teologia Joseph Hubert Reinkens, que foi receber a ordenação episcopal das mãos do arcebispo jansenista[2] de Utrecht na Holanda.

Em Pentecostes de 1874 um Sínodo em Bonn aprovou a constitui­ção eclesiástica traçada por Schulte: cada povo tem sua Igreja nacional autônoma, as Igrejas nacionais estão ligadas entre si pela “Conferência” dos seus Bispos. A autoridade suprema é o Sínodo, do qual fazem parte todos os eclesiásticos e os deputados dos leigos de cada paróquia; o Sínodo promulga leis e examina a administração. Na paróquia a autori­dade suprema toca à assembléia dos fiéis, que elege o seu pároco; a este assiste o Conselho Paroquial.

Os Velhos-Católicos aos poucos foram sendo penetrados por te­ses protestantes, que lhes pareciam corresponder à disciplina da Igreja dos oito primeiros séculos (donde o nome de Velhos-Católicos); rejeita­ram, portanto, além do primado do Papa, o celibato sacerdotal, a confis­são auricular, as indulgências, o culto aos Santos, as procissões e pere­grinações, a Imaculada Conceição de Maria. Introduziram a língua alemã na Liturgia da Missa. Estas inovações causaram descontentamento den­tro da própria comunhão cismática; dos Velhos-Católicos faziam-se Neo-Protestantes. O próprio Inácio von Döllinger abandonou publicamente facção que ele inspirara.

Aliás, a figura de Döllinger ficou sendo misteriosa. Ele não teria levado suas idéias a tais conseqüências práticas; não queria o cisma formal. Ao Núncio Apostólico Mons. Ruffo Sciila, que tentou reconciliá-lo com a Igreja Católica, respondeu Döllinger: “Não quero fazer parte de uma sociedade cismática. Estou isolado… Persisto em considerar-me membro da grande Igreja Católica”. Conservou-se sempre fiel aos votos do seu sacerdócio; absteve-se de celebrar a S. Missa após a excomu­nhão. Sempre levou vida muito modesta, de severa sobriedade e muito trabalho. Parece que no fim da vida sentia saudades da Igreja de sua juventude. Desaconselhou mesmo a um de seus discípulos, Biennerhasset, que o seguisse no caminho tomado após o Vaticano I. O fato é que morreu em 1890 sem se ter reconciliado com a Igreja.

Em 1889 os Velhos-Católicos e os jansenistas se aliaram na cha­mada “União de Utrecht”. As tendências liberais se fizeram sentir muito especialmente na Suíça, onde os Velhos-Católicos são chamados “Igre­ja Cristã Católica”, dirigida por leigos e não por clérigos, como na Alema­nha, porque as razões de oposição ao Vaticano I eram mais políticas do que teológicas.

À comunhão dos Velhos-Católicos agregaram-se outros movimen­tos cismáticos de fundo nacionalista; assim a Igreja Nacional Iugoslava, criada após a primeira guerra mundial (1914-18) e a Igreja Nacional Po­lonesa, que teve origem entre os poloneses dos Estados Unidos e pas­sou posteriormente para a Europa.

É de notar que os padres velhos-católicos celebram os ritos da Liturgia validamente, mas não licitamente. Como?

Validamente… Os velhos católicos têm a sucessão apostólica (ob­tida em Utrecht, como dito); portanto têm capacidade de exercer válido ministério;

Ilicitamente, ou seja, pecaminosamente. Estão em cisma, rompe­ram a comunhão com a Igreja Católica (da qual não são uma vertente); por isto não têm jurisdição para exercer seu ministério, levando muita gente incauta ao cisma, como se fosse indiferente ser católico e ser veIho-católico.

3. E os padres católicos casados?

O padre católico ou em comunhão com a Santa Sé, desejoso de deixar o ministério sacerdotal para se casar na igreja, deve dirigir uma petição à Santa Sé expondo seus motivos. Caso receba a dispensa soli­citada, pode casar-se e viver como bom católico na condição de leigo ou sem exercer o ministério. Não será em absoluto enviado para a comunhão vétero-católica.

Caso não obtenha a dispensa de suas obrigações sacerdotais e, apesar disto, se casar no foro civil, estará em graves condições perante a lei de Deus, mas não deixará de ser um membro da Igreja Católica. Se quiser ir casar-se na comunidade dos velhos católicos, perderá a comu­nhão com a Igreja Católica. Há nítida separação jurídica entre católicos e velhos-católicos, embora doutrinariamente estejam próximos entre si.


[1] Ou Velhos-Católicos.

[2] Jansenistas são hereges do século XVIII, que ainda subsistem em pequenas comu­nidades, tendo sua sede central em Utrecht (Holanda).





5 Elogios!

Lávio - 28/04/2012 (#):

Este artigo vem do site http://www.católicos-online.com sem uma única referência ao mesmo, o que é anti-ético.
Além disso, só o Veritatis Splendor e o Católicos Online têm permissão do mosteiro de São Bento do RJ para publicar online os artigos de dom Estêvão Bettencourt.
Para divulgar artigos de dom Estêvão pelo site Católicos Online, ver página de divulgação no mesmo.
Lávio

Pe. Ney Oliveira - 15/02/2014 (#):

Obrigado por reconhecerem que nós padres véteros somos legítimos e de sucessão válida. Embora tenhamos diferenças, somos padres, tanto nós, como vocês, que devem servir a Deus santamente. Qualquer tipo de discriminação e violência nas expressões é reconhecidamente crime. Portanto, estamos hoje em uma época de pluralidade e aceitação mútua. Amor sim, preconceito não. Deus os abençoe. Amém.

Pe. Wellington Rogério, SVC - 31/05/2014 (#):

Excelente artigo a respeito dos sacerdotes veteros católicos. Parabéns ao digníssimo Pároco Pe. Odezio pelo belo esclarecimento. É isso mesmo! Nosso Deus é um só e queremos ser um só povo e um só Senhor! Papa Francisco está realizando um trabalho belíssimo com o objetivo de unir todos os povos, ainda que tenhamos nossas diferenças. Veja como foi linda a sua visita na Terra Santa! Que belo testemunho! Nosso Senhor nos abençoem e nos proteja a todos.

Hilda - 09/01/2015 (#):

Gostaria de informações: como fazer para fazer parte desse sacerdócio, tenho um sobrinho interessado.

Obg e Deus os abençoe.

JULIO CESAR SPLITT - 27/01/2015 (#):

QUERO FAZER PARTE DESTE SACERDOCIO, ESTOU MUITISSIMO INTERESSADO , POR CARIDADE E AMOR A CRISTO ME AJUDE , NÃO QUERO SER MAIS LEIGO. MEU SITE P/ RESPOSTA AGUARDO. DE CORAÇÃO. J.C.SPLITT@ IG.COM.BR SAUDAÇÕES EM CRISTO. COMO IRMÃO. JULIO CESAR SPLITT

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