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Ecumenismo? A LEGIÃO DA BOA VONTADE

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 382 – março 1994

Em síntese: A Legião da Boa Vontade (LBV), fundada por Alziro Zarur (1914-1979) na década de 1950, é hoje governada pelo Sr. José de Paiva Netto, também presidente da Religião de Deus. Pretende aproximar todos os homens entre si na base do amor fraterno, sem levar em conta as diferenças religiosas. A Religião de Deus, professada pela LBV, não é uma religião que abranja todas as crenças ou com a qual todas se possam identificar de algum modo, pois é francamente espírita e reencarnacionista; quem não compartilha a necromancia e o reencarnacionismo, há de se sentir constrangido e desambientado nessa religião de Deus.

De resto, não é preciso pertencer à LBV para pregar a aproximação dos homens entre si numa atitude fraterna; o Catolicismo apregoa a mesma coisa, todavia respeitando a verdade religiosa revelada por Deus. É São Paulo quem diz: “Seguindo (fazendo) a verdade em amor, cresceremos sob todos os aspectos em direção àquele que é a Cabeça, Cristo” (Ef 4,15). É o relativismo religioso que deteriora ou mesmo anula o programa da LBV; o amor e a fraternidade entre os homens hão de ser cultivados sem detrimento da VERDADE, que é o primeiro de todos os valores ou a luz que ilumina toda a atividade humana.

A Legião da Boa Vontade (LBV) é mais uma das correntes religiosas que solicitam o cidadão de nossos dias. Teve origem no Rio de Janeiro na década de 1950; espalhou-se por todo o Brasil e tem ramificações no estrangeiro, pois pretende dirigir-se a toda a humanidade. O seu fundador é Alziro Zarur (1914-1979), que tem atualmente como sucessor o Sr. José de Paiva Netto, outrora Secretário de Zarur, hoje presidente da LBV e da Religião de Deus.

Os avanços da LBV chamam a atenção do público, ao qual lançam interrogações. Eis por que PR se volta agora para o assunto, após o ter abordado em PR 5/1957, p. 25; 3/1958, p. 119, ou seja, nos primeiros anos de existência da LBV.

1. MENSAGEM

O nome de Legião da Boa Vontade é inspirado pelo texto de Lc 2,14: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade”. Alziro Zarur pretendia unir todos os homens num Grande Parlamento Mundial da Fraternidade, passando por cima de todas as diferenças de religião, raça, cultura, etc; para o conseguir, cada qual deveria ter boa vontade!

A mensagem de Zarur e de Paiva Netto é espírita. Paiva Netto fala de duas humanidades: a visível, que habita sobre a Terra, e a invisível, que habita no céu da Terra; entre uma e outra há comunicações, ou seja, os “espíritos desencarnados” são guias dos homens neste mundo. Eles informam que estamos chegando na hora da Quarta Revelação; na primeira (Antigo Testamento), Deus se terá manifestado; na segunda, Jesus Cristo; na terceira, o Espírito Santo; na quarta, começará a religião do amor universal, orientada por espíritos superiores, que falam não somente através de médiuns, mas também descendo sobre a Terra em discos voadores. Assim, instaura-se a religião de Deus, que congrega todas as crenças religiosas, conforme Paiva Netto.

A LBV proclama o fim da era presente; Jesus estaria chegando para inaugurar nova era; vivemos tempos apocalípticos; todavia, os pregadores da LBV não anunciam desgraças, apenas falam de renovação da história. Paralelamente, professam a reencarnação, tida como necessária, para que as pessoas se purifiquem de seus pecados e atinjam a plena felicidade (que Paiva Netto não descreve). Julgam que a Bíblia admite a reencarnação no Antigo e no Novo Testamento, mas não aprofundam sua afirmação (se o fizessem, perceberiam que ressurreição da carne e reencarnação não significam a mesma coisa).

A LBV e a Religião de Deus se interessam muito pela cura das doenças físicas e morais mediante a imposição das mãos:

“Quando a criatura transgride a lei do Criador, começa a adoecer. Por isto mesmo, para o homem.. . pode haver enfermidade incurável, mas não para Deus. Para Deus todos esses males são perfeitamente sanáveis. Depende da fé que cada um deposita no seu Criador, no Eterno Deus de Amor, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo” (“Jesus está chegando”, no 22, novembro/dezembro 1992, p. 17).

Em Brasília, a LBV construiu o Templo da Boa Vontade, em forma de pirâmide, cujo ápice traz um cristal. No pavimento interno do Templo há sete círculos concêntricos pretos e sete brancos, que as pessoas percorrem para chegar finalmente debaixo do cristal, tido como portador de boas energias!

O Sr. Paiva Netto espera construir também um grande edifício, sede do Parlamento da Fraternidade Universal, ao lado do Templo da Boa Vontade em Brasília. Terá seu Conselho de Honra, que Paiva Netto espera constituir com as mais diversas personalidades do Brasil.

Os pioneiros da Legião fazem questão de colher testemunhos de simpatia das mais diferentes correntes de pensamento; procuram envolver também os fiéis católicos num coro de louvores a Paiva Netto, tido como líder carismático, iluminado por espíritos superiores.

A linguagem utilizada pelos mensageiros da LBV é pomposa e alvissareira; pode impressionar muitos ouvintes e leitores, pois parece ensinar o amor universal por cima de todas as barreiras que separam os homens.

2. QUE DIZER

Duas observações vêm a propósito.

2 .1. A Religião de Deus

Paiva Netto pretende criar uma nova religião: a Religião de.Deus, na qual se encontrariam todos os homens a partir de qualquer crença religiosa.

Esta proposta, porém, é inconsistente. Na verdade, a Religião de Deus não é outra coisa senão uma forma requintada de espiritismo, que pretende basear-se nas Escrituras Sagradas e em conceitos cristãos. Quem não aceita a comunicação com os mortos e a reencarnação há de se sentir constrangido pela mensagem espírita da LBV; assim, um fiel católico há de julgar que a LBV faz “um belo teatro religioso”. . ., mas teatro que foge à verdade ou à realidade. Só pode filiar-se à LBV quem não tenha convicções religiosas ou quem pense que religião é um sentimento vago e cego.

Ora, dizemos que a fé não é uma atitude cega ou sentimental; é um ato da inteligência humana, que foi feita para a verdade, e que sabe que existe a verdade não somente nas ciências exatas, mas também na área religiosa. Deus é a Suma Verdade, e Ele se revela ao homem por vias objetivas que interpelam a inteligência humana. Para que alguém creia como ser inteligente, deve pôr sua inteligência a funcionar e indagar: “Por que hei de crer. . .? Por que crer nisto ou naquilo e não naquilo outro?”.É essa indagação da inteligência que prepara o ato de fé e faz que seja algo à altura da dignidade humana.

Por isto, dizemos que existem a verdade (proposições verídicas) e o erro (proposições errôneas) no setor religioso. Em conseqüência, uma pessoa que tem suas convicções religiosas, não pode fingir que não as tem e que abona crenças diversas das suas. Isto significa ofender a Verdade ou o próprio Deus.

É claro, porém, que a distinção entre verdade e erro em religião não implica em hostilidade entre as pessoas. Pode haver encontros entre elas em âmbito de fraternidade e benevolência, contanto que não se relativize a verdade religiosa.

A Igreja Católica apregoa a aproximação dos homens entre si, quaisquer que sejam as suas crenças religiosas. Essa aproximação pode favorecer o diálogo, desfazer preconceitos e barreiras; nunca, porém, deverá redundar em relativismo religioso.

Vejamos, por exemplo, o Decreto sobre o Ecumenismo do Concilio do Vaticano II:

“No diálogo com os irmãos, é absolutamente necessário que a doutrina inteira seja lucidamente exposta. Nada é tão alheio ao ecumenismo quanto aquele falso irenismo, pelo qual a pureza da doutrina católica sofre detrimento e seu sentido genuíno e certo é obscurecido” (no 11).

O relativismo ou as concessões mútuas podem ter lugar entre partidos políticos ou instituições meramente humanas, pois nenhuma delas tem a garantia da inerrancia. Diferente, porém, é o caso da fé; esta resulta da adesão à Palavra de Deus, que é intocável e escapa às conveniências humanas.

Não há dúvida, em todos os seres humanos existe o mesmo senso religioso inato, pois o homem é sapiens e religiosus. Isto explica a convergência das diversas correntes religiosas em manifestações idênticas: a oração com seus gestos, o recolhimento, o culto a Deus, a ascese, uma ética condigna. . . Todavia, além da base comum, toda Religião tem seu Credo próprio: a respeito de Deus, há quem diga que é uma Força Neutra que move o universo,. . . há quem diga que é o próprio mundo e o homem,. . . há quem diga que é o Criador distinto do mundo e do homem. . . A respeito da salvação, há quem julgue que o homem mesmo se salva por seus esforços em encarnações sucessivas e há quem diga que é Deus quem salva o homem porque lhe quer bem e se entregou para a salvação do mundo. . . Por isto, cada religião é inconfundível; quem a professa, professa-a porque a tem como verdadeira e certamente não quer que a verdade e o erro sejam :colocados no mesmo plano.

O S. Padre João Paulo II tem dado belo testemunho de aproximação dos credos entre si, sem confusão religiosa. Um dos mais significativos foi o Encontro de Assis em 27/10/1986: 108 pessoas representantes das grandes religiões da humanidade (cristãos, budistas, hinduístas, maometanos, judeus, janistas, xintoístas, sikitas, zoroastrianos, cultores das tradicionais crenças da África e da América) passaram um dia em oração e jejum, na qualidade de peregrinos, que pediam a Deus a paz para o mundo; cada grupo, porém, rezou segundo o seu rito, num recinto ou numa capela própria.

Com outras palavras: a prática da caridade ou da fraternidade não pode empalidecer um valor que lhe é anterior e que vem a ser luz para toda a atividade humana: a VERDADE. A caridade cega, não iluminada pela verdade, não é autêntica. Seja sempre respeitada a diferença entre a verdade e o erro; este respeito não impede a benevolência para com todos os homens; ao contrário, exige-a, todavia, sem concessões ao relativismo religioso.

Vê-se assim que o amor a todos os homens e o desejo de os aproximar entre si não são apanágio da LBV. São programa também do Catolicismo, que, preservando a Verdade, alicerça mais solidamente o senso de fraternidade universal. O que favorece a expansão da LBV é o seu relativismo, que não chama a atenção de ninguém, visto que, em nossos dias, são freqüentes o subjetivismo, o sentimentalismo e o antiintelectualismo em matéria religiosa.

2.2. Fenômenos mediúnicos

A profissão de fé espírita da LBV seja avaliada à luz das recentes conclusões da psicologia e da parapsicologia. Estas verificam que o ser humano tem um rico e poderoso inconsciente, suscetível de ser acionado pela sugestão (explícita ou implícita, auto-sugestão ou hetero-sugestão). Por conseguinte, a pessoa sensitiva (em linguagem espírita, dir-se-ia: o médium), quando condicionada, pode exercer a percepção extra-sensorial, a telepatia, a telecinesia, a telergia, a pantomnésia. . ., como se fossem fenômenos resultantes de intervenções do além; na verdade, tais fenômenos, apresentados como manifestações de uma outra humanidade (invisível), não são mais do que expressões do psiquismo do próprio médium. Isto hoje é claro a quem se dedica ao estudo de tais realidades.

Quanto à reencarnação, já tem sido refutada algumas vezes em PR; cf. 256/1983, pp. 168ss; 220/1978, pp. 174ss; 230/1979, pp. 66ss. Não se baseia em prova alguma; ninguém tem recordação do que foi em vida anterior; por isto, também não sabe que culpas está expiando na vida presente. Além do quê, segundo a lei do karma, quem vive pobre e doente, é pecador que está pagando por faltas graves cometidas em encarnação anterior, ao passo que toda pessoa rica e sadia é pessoa virtuosa que está recebendo o prêmio de suas virtudes. . .!

Estas poucas considerações evidenciam o despropósito da Legião da Boa Vontade, que não resiste ao crivo de raciocínio sereno e objetivo.

Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.





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