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Como conceber Deus? “DEUS NA HISTÓRIA”

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 523/ Janeiro de 2006

por Renold Blank

Em síntese: O autor julga que os atributos significativos da transcendência de Deus (Onipotente, Onisciente, Eterno…) interessam a Jesus Cristo menos do que os atributos expressivos da defesa dos pobres e excluí­dos. A face que Deus quis revelar aos homens mediante Jesus Cristo seria a do Deus que se opõe aos poderosos e toma o partido dos fracos. Ao dizer isto, R. Blank faz violência ao texto sagrado, em que Jesus aparece como Rei cujo reino não é deste mundo, mas é transcendente - o que não impede que o Reino de Deus tenha sérias incidências na organização da ordem temporal.

Renold Blank é autor conhecido por suas obras de escatologia. Entrega neste ano ao público de 2005 mais um livro ligado à temática.

Proporemos o conteúdo de tal obra, ao que se seguirão alguns comentários.

1. A tese do autor

1.1. Um Deus diferente

R. Blank parte do presumido fato de que muitos cristãos, durante séculos, têm sofrido de neuroses por causa do medo incutido por um conceito legalista de Deus,… de um Deus que ordena, cobra e castiga. Tal conceito, diz Blank, é inspirado pela filosofia professada entre povos pagãos; estes já reconheciam a onipotência, a onisciência, a eternidade da Divindade, cf. p. 241. Tais atributos não são negados pela revelação bíblica, mas são empalidecidos pela imagem de um Deus muito presente aos homens, que se põe do lado dos excluídos contra os poderosos opres­sores. Jesus confirmou tal imagem de Deus manifestada no Antigo Tes­tamento, como diz o autor às pp. 62s do seu livro:

‘Em vez de exigir que todos aqueles que desejam algo dele se deslo­quem e peregrinem até o lugar onde se encontra, até o lugar santo, até o templo, até o centro, o Deus-Ser humano prefere ele mesmo deslocar-se.

Em vez de aguardar os louvores e celebrações de seus adeptos, este Deus ri-se de todas estas cerimônias com as quais pensam exaltara sua grandeza. Ele prefere sentar-se junto com os pastores do campo, com os mendigos na beira da rua e com aqueles que os seguidores pie­dosos do templo chamam pecadores. Escândalo para todos os devotos, sinal de revelação para aqueles que nele acreditam.

O Deus verdadeiro não se deixa fixar num lugar.

O Deus verdadeiro não exige celebrações cúlticas suntuosas em seu louvor.

Em vez disso, ele se interessa por aqueles que foram excluídos e marginalizados. E por estes não mais terem condição de peregrinar ao lugar declarado santo, por também os guardiães deste lugar santo não os aceitarem, o Deus humilde vai atrás deles e corre para os lugares onde eles se encontram (cf. Lc 19, 10; 15, 6; Ez 34, 16).

Na atitude de Jesus confirma-se a imagem original do Deus de Abraão. Na atitude dele rejeitam-se e corrigem-se também de maneira definitiva todas as tentativas de fixar Deus num templo, fazendo dele o deus cúltico de um lugar.

O lugar do Deus verdadeiro não é um lugar definido por seres humanos; ele  age na história e, na maneira de seu agir, escolhe os cami­nhos que quer.

Deus não fica ligado a um lugar. Ele incentiva e acompanha a caminhada histórica rumo a novos horizontes.

Encontramos assim, na ação de Jesus, a mais clara confirmação da característica do Deus itinerante de Abraão. Além disso, é a praxis dele que rejeita de maneira definitiva e clara todas as tendências de que­rer fixar Deus num lugar, enclausurando-o num templo de ouro e limitan­do o acesso a poucos.

O Deus de Abraão, o Deus Jesus, o Deus verdadeiro revela-se aquele que é: indomável, presente e atuante em todo o lugar onde o seu povo se encontra, o Deus da história que acompanha este povo” (pp. 62s).

O autor estabelece o princípio: “se queremos saber como Deus é, devemos saber como Jesus é, porque Jesus é Deus” (p. 38). Ora Jesus sofreu; logo Deus sofreu, “mas o sofrimento de Deus foi superado pela ressurreição” (p. 263).

1.2. Observações complementares

1) No tocante à historicidade dos relatos do Antigo Testamento, o autor não a quer debater, mas insinua serem tais relatos meras construções teológicas sem base na história real. Assim escreve à p. 171:

“Torna-se necessário levar em consideração as mais recentes e muito críticas pesquisas sobre a história de Israel. Nelas pode-se obser­var com ênfase cada vez maior a tendência de compreender tudo aquilo que foi chamado ‘História de Israel’ como construto literário, muito distan­te da realidade histórica”.

Acrítica assim concebida acarreta graves conseqüências…

2) A respeito de Jesus Cristo afirma o autor:

“Em Jesus encontramos não só uma pessoa humana, mas a pes­soa divina” (p. 249).

Rigorosamente entendidas, estas palavras professam a heresia nestoriana, segundo a qual em Jesus havia duas naturezas e duas pes­soas (a divina e a humana). Pergunta-se agora:

QUE DIZER?

Proporemos cinco considerações:

1. Conceitos pagãos?

Os conceitos referentes à transcendência de Deus (Onipotente, Onisciente, Eterno…) podem ter sido professados por filósofos gregos da época do paganismo, mas não são derivados de premissas pagãs ou mitológicas. São, antes, a expressão da sadia razão humana, que é ca­paz de atingir Deus e alguns de seus predicados. Tornam-se atributos de Deus reconhecido pela religiosidade natural do ser humano, compatíveis com a imagem que Deus quis revelar de Si nas páginas da Bíblia.

2. O Deus dos excluídos

É certo que nos relatos do Antigo Testamento (como no do Evange­lho) Deus se revela como Defensor dos pequeninos e excluídos. Esta imagem, porém, não anula nem empalidece a anterior; antes, deve com­binar-se com o conceito da transcendência divina. Dizia S. Agostinho: “Deus é mais elevado do que o que eu tenho de mais elevado, e me é mais íntimo do que o que eu tenho de mais íntimo”. Assim transcendência e imanência de Deus se complementam mutuamente em nosso intelecto.

O Deus da Revelação bíblica é devidamente cultuado em seus templos mediante uma Liturgia inspirada pela fé. O Apocalipse, em seus ca­pítulos 4 e 5, deixa entrever o culto de adoração, louvor e gratidão que as criaturas prestam a Deus na corte celeste, culto do qual participam os fiéis peregrinos na terra: cf. Ap 5, 8.

3. Conhecer Deus mediante Jesus

Em Jesus havia um só Eu, divino, consubstancial ao Pai. Mas ha­via duas naturezas – a divina (eterna) e a humana (assumida no seio de Maria Virgem). Jesus sofreu, morreu e ressuscitou não como Deus, mas como homem; por isto não se pode dizer que Deus como tal sofre; Ele 2-5 5:”-er em sua natureza humana no decorrer da história e não em : -jade. Por isto não se pode atribuir a Deus e?n sua eternidade : cue ocorreu a Jesus no tempo de sua vida terrestre.

4. Relatos históricos ou não?

Ao lado dos que negam a historicidade dos relatos do Antigo Testa­mento, há autores que a afirmam, baseados em documentos arqueológi­cos, inscrições, papiros… Como se compreende, nem todos os textos têm o mesmo grau de historicidade, pois há gêneros literários com suas peculiaridades de redação… Ver, a propósito, nosso Curso “Descobrindo o Antigo Testamento” publicado pela Escola “Mater Ecclesiae”, cujo telefax é (21) 2242-4552.

A negação da historicidade acarreta graves conseqüências: Jesus teria vindo pregar em cima de um “construto literário” ou sobre meras idéias projetadas por antigos judeus. Na verdade, o fiel católico crê que Deus falou outrora pelos pais e os profetas; cf. Hb 1, 1. Falou, recorrendo à linguagem de mensageiros humanos e ocasionando feitos significati­vos. Ver Constituição Dei Verbum n° 2 do Vaticano II:

“2. Foi do agrado de Deus, em Sua bondade e sabedoria, revelar-Se a Si mesmo e tornar conhecido o mistério de Sua vontade (cf. Ef 1, 9), pelo qual os homens, por meio de Cristo, Verbo feito carne, no Espírito Santo têm acesso ao Pai e se tornam participantes da natureza divina (cf. Ef 2, 18; 2Pd 1, 4). Com esta Revelação, pois, o Deus invisível (cf. Cl 1, 15; Um 1, 17), no Seu imenso amor, fala aos homens como a amigos (cf. Ex 33, 11; Jo 15, 14-15), e com eles se entretém (cf. Br 3, 38) para os convidar à comunhão consigo e nela os receber. Este plano da Revela­ção se realiza por meio de palavras e ações intrinsecamente conexas entre si, de tal modo que as obras realizadas por Deus na história da salvação manifestam e corroboram os ensinamentos e as realidades significadas pelas palavras. As palavras, porém, proclamam as obras e elucidam o mistério nelas contido. No entanto, a verdade profunda sobre Deus e sobre a salvação do homem [que sabemos] por esta Revelação nos é manifestada em Cristo, que é ao mesmo tempo o Mediador e a plenitude de toda a Revelação (cf. Mt 11, 27; Jo 1, 14.17; 14, 6; 17, 1-3; 2Cor3, 16; 4, 6; Ef1, 3-14)”.

5. Em suma…

Renold Blank se manifesta adepto da Teologia da Libertação, cujos ditames ele quer apregoar ao recompor a história do conceito de Deus. Isto o torna unilateral, impedindo uma visão objetiva dos fatos, isenta de preconceitos.





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