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Paralelismo entre CANONIZAÇÃO DOS SANTOS E APOTEOSE PAGÃ?

Em síntese: Há historiadores que pretendem identificar a praxe cató­lica de canonizar Santos com o costume pagão da apoteose (endeusamento) de heróis. Ora tal proposição carece de todo fundamento, pois 1) os cristãos nunca intencionaram endeusar uma criatura, mas apenas veneram os justos falecidos como sendo expressões da vitória de Cristo sobre o pecado e a morte (o culto dos Santos é todo relativo a Jesus Cristo e a Deus Pai); 2) os pagãos endeusavam apenas membros de famílias nobres; os cristãos ca-nonizam qualquer fiel que se tenha distinguido pela prática das virtudes heróicas, comprovada por sinais da parte de Deus.

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Por canonização (= consignação no cânon ou no catálogo) en­tende-se a sentença definitiva pela qual o Sumo Pontífice declara estar algum servo de Deus na glória celeste e permite que lhe seja conseqüen­temente prestada pública veneração.

Da canonização distingue-se a beatificação, ato pelo qual o Sumo Pontífice permite seja tributado culto público a um servo de Deus em certa região ou certa família religiosa (excepcionalmente na Igreja universal).

Os fiéis falecidos em fama de santidade sempre foram objeto de particular estima por parte dos cristãos. Esse apreço nada tem que ver com o que os pagãos tributavam aos seus mortos nas famosas apoteoses.

a) Os pagãos costumavam celebrar atos públicos nos quais um homem (um rei, no Egito; um herói, na Grécia; um Imperador, em Roma) era declarado deus ou semi-deus. Em Roma, a cerimônia baseava-se na crença oriental de que a alma, sendo produto de emanação de substância divina do Sol, voltava a esta ou ao seio do fogo divino após a morte do indivíduo; costumava-se então preparar em praça pública uma fogueira, sobre a qual era colocado o cadáver do Imperador; enquanto este ardia juntamente com perfumes e ervas aromáticas, soltava-se, espantada pelo calor, uma águia que até aquele momento se achava oculta junto à fo­gueira; essa águia (ave divina por excelência), diziam, levava a alma do Divino Imperador (ou do Imperador Divino) aos céus (cf. Suetônio, Augusto 100; Herodiano IV 2).

Ora é claro que os cristãos de modo nenhum entendiam (ou enten­dem) elevar os justos à categoria de deuses. Apenas afirmam que os santos são frutos consumados da Redenção de Cristo, criaturas nas quais se exprimem de maneira grandiosa a sabedoria e o amor de Deus; essas criaturas tornam-se assim motivo para que seus irmãos louvem e adorem o Pai do Céu. Os santos são também, conforme a concepção cristã, os grandes amigos de Deus, aos quais os viandantes da terra se dirigem para pedir sua intercessão junto ao Todo-Poderoso. Assim se vê que o culto dos santos é todo referente a Deus.

b)  Os pagãos tributavam a apoteose exclusivamente aos Impera­dores, aos membros e favoritos da família imperial; não se tem notícia de que endeusassem um homem do povo. Os cristãos, ao contrário, reco­nhecem como santos tanto reis e pontífices como os irmãos de catego­ria humana mais modesta.

c)  O critério pagão para endeusar alguém era unicamente a classe social da pessoa, de sorte que no Olimpo se colocavam homens de cos­tumes depravados. Assim. Nero divinizou sua concubina impudica Pompéia, depois de lhe ter tirado a vida mediante um ponta-pé. O Impera­dor Caracala endeusou seu irmão Geta que ele matara, porque o tinha na conta de rival; observou então ironicamente: Sit divus, dummodo non sit vivus! – Seja divino, contanto que não seja vivo (cf. Tácito, Annal, XIII 45; XV 23; XVI 6; Suetônio, Nero 25). Em conseqüência, as apoteo­ses eram às vezes ridicularizadas pelos próprios escritores pagãos; foi o que Séneca fez diante do endeusamento do Imperador Cláudio.

Quanto aos cristãos, está claro que só estimam santos aqueles que hajam praticado as virtudes em grau comprovadamente heróico ou fora do comum.

Não será preciso insistir no contraste vigente entre culto dos santos e as apoteoses pagãs (por isto é que tanto os cristãos como os judeus sempre resistiram ao culto dos Imperadores e às apoteoses em geral). A canonização dos santos se inspira, antes, em costumes bíblicos: o autor do Eclesiástico escreveu o “Louvor dos Pais (Enoque, Noé, Abraão, Isaque, os justos…)”, redigindo desta forma o primeiro catálogo ou cânon dos santos de Israel (cf. Eclo 44-51).





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