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Teologia da Libertação: JESUS, O LIBERTADOR (I)

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 385/junho 1994

Teologia

por Jon Sobrino

Em síntese: A obra de Jon Sobrino, teólogo de El Salvador, filiado à corrente da Teologia da Libertação, não corresponde à doutrina da fé: encara Jesus à semelhança de um profeta que ignorava o desfecho de sua missão e, por isso, não pôde reconhecer o caráter de sua morte como sacrifício expiatório pelos pecados do mundo, nem podia dar à Eucaristia o significado de perpetuação de sua morte salvífica sob forma sacramental. Além disso, a obra de Sobrino é marcada por uma nota fortemente dualista e agressiva (por mais que o autor queira repelir o dualismo; cf. p. 184). Com efeito: divide a sociedade em “reino de Deus” e “anti-reino”, propondo entre uma e outra facção a luta de classes e o uso da violência (cf. p. 318). O critério para se avaliar os homens seria a posse de bens materiais; esta é sempre tida como iníque, independentemente das qualidades morais do proprietário. A pregação de Jesus se terá dirigido unicamente aos pobres de pão e dinheiro, ficando excluídos os ricos pelo fato mesmo de serem ricos. Ora, isto fere as mais fundamentais proposições do Evangelho, para o qual o coração do homem tem valor decisivo; está claro, porém, que um coração reto e puro saberá renunciar e despojar-se sempre que necessário, guardando em tudo as normas da justiça e do amor. Neste contexto, riqueza e pobreza ficam sendo a moldura que resulta de atitudes interiores assumidas pelo homem perante Deus; seja levado em conta o texto das bem-aventuranças em Mt 5,3-12, que, enfatizando qualidades éticas, completa o de Lc 6,20-26, que considera apenas situações ou quadros de vida.

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Saiu do prelo recentemente mais um volume da série “Teologia e Libertação”, que é uma coleção de dezenas de volumes de Teologia para a América Latina. Trata-se, desta vez, de “Jesus, o Libertador (I)”,(1) da autoria de Jon Sobrino. Este sacerdote jesuíta é de origem basca; nasceu em 1938; entrou na Companhia de Jesus em 1956 e transferiu-se para El Salvador em 1957. Doutorou-se em Teologia pela Universidade de Frankfurt (Alemanha) em 1975. Atualmente vive em El Salvador (América Central), como um dos expoentes da Teologia da Libertação.

(1) Tradução do espanhol por Jaime A. Clasen — Ed. Vozes, São Paulo 1994, 135 x 210 mm, 392 pp.

A obra cristológica de Jon Sobrino compreende dois tomos: o primeiro, que estamos considerando, apresenta uma “leitura histórico-teológica do Cristo que é Jesus de Nazaré”; o segundo abordara’ “a história das Cristologias e da fé em Jesus de Nazaré, proclamado como o Cristo a partir da ressurreição” (p. 19).

O tomo I está sendo propagado no Brasil e tem despertado árduas controvérsias decorrentes de seu conteúdo muito característico. Eis por que nos voltamos para uma análise atenta da obra.

1. OS PRINCIPAIS TRAÇOS DO LIVRO

Como diz o próprio autor, o livro foi escrito sob o impacto da situação social conflitiva de El Salvador, ou seja, “em meio a guerra, ameaças, conflitos e perseguições. . . O assassinato de meus irmãos jesuítas, de Julia Elba e de Celina deixou meu coração gelado. . . Tanta tragédia e tanta esperança. . . . oferecem um poderoso horizonte hermenêutico para compreender o Cristo” (4a. capa). O autor se refere freqüentemente a El Salvador, ao Pe. Ignacio Ellacuría, a Mons. Oscar Romero, tidos como referenciais para elaborar uma Cristologia latino-americana. Esta se enquadra tipicamente dentro dos moldes da Teologia da Libertação, segundo Jon Sobrino.

1.1. Cristologia latino-americana

Diante da situação de miséria de várias populações latino-americanas, alguns teólogos propõem à confecção de uma Teologia que responde exatamente à problemática; tal seria a Teologia da Libertação. Que tem esta de específico?

A clássica Teologia se debruça sobre a Palavra de Deus revelada na Escritura e na Tradição e procura aprofundá-la, sem outro objetivo senão o de compreender melhor o que ela quer dizer (este trabalho se chama “Teologia Sistemática”). De tal aprofundamento seguem-se conclusões de ordem ética, que constituem a “Teologia Moral”, da qual uma seção é a Doutrina Social da Igreja, voltada para as questões atinentes à organização da sociedade. Em poucas palavras: na Teologia clássica, o Logos (a Palavra, a Doutrina da fé) vem primeiro e ilumina a Praxis ou a atividade moral dos cristãos.

Na Teologia da Libertação invertem-se os fatores. O ponto de partida é a situação de injustiça em que vivem muitos latino-americanos. A necessidade de transformar a sociedade (Praxis) é premissa indiscutida, em função da qual se faz a releitura do Lógos ou da Palavra de Deus, procurando-se deduzir da mesma todos os elementos que confirmem e orientem o propósito transformador ou quiçá revolucionário.(1) Donde:

Teologia clássica: Lógos à Práxis
Teologia da Libertação: Práxis
à Lógos

Aplicando estes princípios ao estudo de Cristo, os teólogos da libertação elaboram uma Cristologia que atenda às exigências de mudança social almejada para a América Latina. Todo o Evangelho é percorrido a partir da ótica sócio-econômico-política, às vezes de maneira preconcebida, unilateral e artificial. — É dentro deste quadro que se coloca o livro de Jon Sobrino sobre “Jesus, o Libertador”.

(1) Esta afirmação tem importância especial se se leva em conta o seguinte: Ludwig Feuerbach (f 1872) asseverava que o importante não é interpretar o mundo, mas transformá-lo. Desta tese se segue o primado efe práxis ou ação sobre a reflexão. Ora, a posição de Feuerbach foi adotada (talvez com matizes) por pensadores cristãos; estes quiseram dar a primazia à ação transformadora da sociedade, ficando as proposições da fé em plano secundário, dependente da praxis: para tais pensadores, “conscientização” significaria “tornar o pobre mais consciente da sua dor” ou mais amargurado e, em conseqüência, mais atiçado para a ação revolucionária.

Examinemos algumas das conclusões a que leva a metodologia de Jon Sobrino.

1.2. O que sabemos sobre Jesus

Jon Sobrino é seguidor de Rudolf Bultmann, o principal autor da desmitização (Entmythologisierung) dos Evangelhos. Conforme esta escola, os Evangelhos não nos dizem propriamente o que Jesus disse e fez, mas o que os primeiros cristãos conceberam a respeito de Jesus. Ora, os antigos cristãos eram grupos humanos oprimidos pelo Império Romano; viram em Jesus o Libertador, que havia contestado os ricos (pp. 254-259), os escribas e fariseus (pp. 259-262), os sacerdotes (pp. 262-265) e as autoridades civis do seu tempo, e nos transmitiram tal imagem de Jesus nos Evangelhos. — É precisamente esta imagem que interessa a Sobrino e aos teólogos da libertação: haveria três situações análogas entre si, nas quais Jesus aparece como o Libertador: 1) o povo judeu oprimido e as autoridades civis e religiosas do tempo de Cristo; 2) as primeiras comunidades cristãs, também oprimidas, e as autoridades civis do século I; 3) as populações empobrecidas da América Latina e os ricos que as oprimem em nossos dias. — São palavras de Jon Sobrino:

“A Cristologia latino-americana reproduz mutatis mutandis o modo de proceder das cristologias das primeiras comunidades. Precisamente porque não se trata de refletir diretamente sobre Cristo-em-si-mesmo, mas em sua qualidade de boa-notícia, a referência à comunidade concreta é essencial. ..

Neste modo de proceder não há manipulação de Cristo ou, pelo menos, em princípio não há. O próprio fato de que tanto as primeiras comunidades como as atuais continuem se remontando a Jesus, continuem afirmando que a boa notícia é o que ele traz e o que ele é, aceitem as exigências de Jesus, declarem-no a norma normans da libertação e dos modos de trabalhar por ela, mostra que não há manipulação. O que existe, hoje como ontem, é circularidade entre um Jesus que é para as comunidades e umas comunidades que se remetem a Jesus. . .

A cristologia só pode se desenvolver levando em conta os dois pólos: Jesus e as comunidades. Tem de ser, portanto, essencialmente cristologia contextual, embora deva integrar também as afirmações dogmáticas universais” (pp. 99s).

Como se vê, o autor não se interessa (nem crê que seja possível interessar-se) por Jesus em si mesmo (tese bultmanniana), mas vê Jesus em termos existenciais: quem era Ele para as antigas comunidades cristãs? — A resposta está nos Evangelhos.  E conseqüentemente: quem é Ele para as populações latino-americanas? Evangelho ou Boa-Notícia significa “a resposta precisa para tais e tais comunidades sofredoras”. É Evangelho contextual ou relativo a determinadas situações.

Passemos agora à consideração do que Jesus anunciava.

1.3. A pregação de Jesus

Jesus pregava a vinda do Reino de Deus. Este, conforme Sobrino, tem sentido estritamente social. Significa o término da presente situação, em que há duas classes de cidadãos: os ricos opressores e os pobres oprimidos. O reino é contestado pelo anti-reino. O autor dedica algumas páginas ao tema “Profecia e Anti-Reino” (pp. 239-242) e no decorrer de toda a sua obra refere-se às estruturas sociais vigentes outrora e hoje como sendo o anti-reino de Deus, que o cristão, como Cristo fez, deve combater ferrenhamente. Eis uma passagem, dentre as mais significativas:

“Jesus não só anuncia o reino e proclama um Deus Pai, mas também denuncia o anti-reino e desmascara os ídolos. Com isso vai às raízes de uma sociedade oprimida sob todo tipo de poder: econômico, político, ideológico e religioso. Existe, pois, o anti-reino, e Jesus — objetivamente — mostra quais são suas raízes. E não se contenta em denunciar o Maligno, realidade trans-histórica, mas também seus responsáveis, realidades históricas.

Nesta práxis, Jesus aparece na linha dos profetas clássicos de Israel, como Amós, Oséias, Isaías, Jeremias, Miquéias.. ., e na dos modernos profetas, como Monsenhor Romero, Monsenhor Proaño, Martin Luther King. . . confrontado com o anti-reino e os ídolos. Sua mensagem central é a defesa dos oprimidos, a denúncia dos opressores e o desmascaramento da opressão que se faz passar por boa e se justifica na religião. E esta práxis o assemelhará aos profetas também em seu destino: o anti-reino reage e o mata” (p. 266).

Na luta contra o anti-reino, conforme Sobrino, o decisivo não é a crença religiosa de quem combate; não há que distinguir entre ortodoxia e heterodoxia religiosa dos que se opõem ao anti-reino, porque o valor decisivo não é o Credo religioso, mas o sair em defesa das vítimas da opressão:

“O decisivo não é o religioso-ortodoxo, nem poderia ser... O último e mais decisivo para Deus é fazer sua vontade, que consiste em sair em defesa das vítimas. Assim os homens, judeus ou samaritanos, respondem a Deus porque correspondem a sua realidade. ..

Não conta o fato de a motivação para agir ser explicitamente religiosa algo que está sendo feito por causa de Deus mas o que conta é a ação em si. E, para fechar toda e qualquer possível escapatória, já que se argumenta com Deus, Jesus responde: é que Deus está exatamente aí, é que a interpelação da realidade é a interpelação de Deus” (pp. 282s).

Por isto os destinatários do Reino de Deus ou da pregação de Jesus são os pobres materialmente pobres, com exclusão dos ricos (a menos que estes se façam pobres); cf. p. 190. O autor não admite um rico justo, fiel a Deus; a riqueza é sempre roubo, é sempre o empobrecimento do outro:

“O anúncio da boa-notícia aos pobres pelo mero fato de serem pobres sacode e abala os alicerces da religião. . . O reino de Deus é para os pobres pelo simples fato de o serem. .. Deus se revela, segundo a sua própria realidade, como parcial aos pobres pelo mero fato de serem pobres. Essa parcialidade de Deus nos parece uma constante em sua revelação” (p. 130).

Disto se segue que a opção de Jesus e dos teólogos da libertação pelos pobres é excludente ou exclusiva e não preferencial:

“O menos que se pode dizer da visão de Jesus. .. é que a coexistência de ricos e pobres é insultante e, por isso, intolerável, e a implicação óbvia é que os ricos devem ajudar os pobres, embora para isso tenham de deixar de ser ricos. Mas, numa passagem pelo menos, Lucas reflete sobre a riqueza não só já como desumanizante e insultante e sim como ‘injusta’ (Lc 16,9), adjetivo que não qualifica uma entre várias possíveis riquezas — como se pudesse haver riquezas justas e riquezas injustas —, mas a riqueza como tal…

Para Jesus, portanto, a riqueza é um grave mal social e a razão intrínseca consiste em que é injusta. Isso é claro no Evangelho de Lc. De um detalhado estudo, desse evangelho, C. Escudero Freire conclui que os ricos são ‘opressores dos pobres’ e as situações de pobreza são ‘causadas pelo homem opressor’. E, dito com simplicidade, lembremos que na única passagem dos sinóticos em que aparece a conversão de um rico, Zaqueu (Lc 19,1-10), Jesus se alegra com isso, mas não por causa da boa acolhida que teve, nem antes de Zaqueu prometer restituir o que roubara. Zaqueu deixa de ser o homem maldito, porque deixa de ser o homem rico opressor” (p. 257).

Estas palavras fazem eco exato ao conceito de riqueza formulado por Karl Marx. A pregação de Jon Sobrino, tomada ao pé da letra, leva a instaurar uma sociedade marxista.

Após haver examinado o conceito de Reino de Deus e o teor da pregação de Jesus conforme Jon Sobrino, perguntamos:

1.4. E quem é Jesus?

O autor não pretende negar a fórmula do Concílio de Calcedônia (451), segundo o qual em Jesus havia uma só Pessoa (divina) e duas naturezas (a divina e a humana), mas parece reduzir Jesus à qualidade de mero profeta que desempenha sua missão combativa (contra os ricos), suspeita que será, por isso, condenado à morte, mas ignora o desfecho de sua vida. Julga mesmo que o Reino de Deus ocorrerá em sua plenitude depois de terminada a missão messiânica que Jesus está a cumprir:

“Deus se torna enigma para Jesus quando se reserva absolutamente o dia da vinda do reino que Jesus acreditava próximo. Deus se faz mistério quando sua vontade vai além da lógica do reino e requer um sofrimento impensado e finalmente exigirá a cruz. Deus se tornará escândalo para Jesus quando este na cruz escutar seu silêncio” (p. 235).

Em conseqüência, Jesus ignorava o sentido de sua morte como sacrifício expiatório:

“O Jesus histórico não interpretou sua morte de maneira salvífica segundo os modelos soteriológicos que, depois, o Novo Testamento elaborou: sacrifício expiatório, satisfação vicária...” (p. 296).

“Pode-se dizer que Jesus vai para a morte com confiança e a vê como último ato de serviço, antes à maneira de exemplo eficaz e motivante para os outros do que à maneira de mecanismo de salvação para os outros. Ser fiel até o fim, isso é ser humano” (p. 299).

A p. 348 Sobrino abona um texto de J. Moltmann, autor protestante:

“Jesus, como ninguém antes dele em Israel, tinha pregado a proximidade do reino de Deus, demonstrando-a como gratuita, não condenadora, mas salvadora para os insalváveis, rejeitados e odiados.. . Alguém que vivia tão perto de Deus. . . não podia entender sua entrega à morte maldita na cruz meramente como um infortúnio, como um mal-entendido humano ou como uma última prova, mas teve que experimentá-la como abandono por parte precisamente do Deus ao qual Ele se atrevera a chamar ‘meu Pai’.”

Logicamente, segundo Sobrino, Jesus não pôde dar à Eucaristia o sentido de “sacrifício da Cruz perpetuado sobre os nossos altares de forma sacramentai”. Se atualmente a Igreja professa tal noção de Eucaristia, isto se deve à interpretação que os Apóstolos deram aos acontecimentos finais da vida de Jesus. Na verdade, segundo Sobrino, as narrações da última ceia nos Evangelhos, são “teologizadas”:

“A compreensão salvífica da cruz de Jesus é que desenvolveu também as narrações da última ceia, já teologizadas. Por um lado, as palavras de Jesus sobre o cálice são interpretadas na linha sacrifical como uma ação em favor dos homens, sangue derramado por vós’, afirmam os três sinóticos, ao que Mt acrescenta ‘para o perdão dos pecados’. Mas, por outro lado, os três sinóticos e 1 Cor 11,25 explicitam que esse sangue é o que produz uma aliança entre Deus e os homens, nova e definitiva” (p. 327).

À p. 159 o autor apresenta a Eucaristia, sem mais, como a mesa compartilhada ou testemunho de fraternidade entre os homens:

“Os pobres são peritos em sofrimentos inenarráveis, mas muitos deles não sucumbem à tristeza. Têm a capacidade de celebrar o que já há de sinais benéficos e libertadores. E celebram em comunidade, como Jesus, em volta de uma mesa. A mesa compartilhada continua sendo o grande sinal do reino de Deus. Assim disse o P. Rutilio Grande SJ em sua famosa homilia de Apopa em fevereiro de 1977, poucas semanas antes de ser assassinado:

O Senhor Deus, em seu plano, deu-nos um mundo material, como esta missa material, com o pão material e com o cálice material que elevamos em brinde a Cristo. Uma missa comum com toalhas grandes para todos, como esta Eucaristia. Cada um com seu banquinho e que para todos haja mesa, toalha e alimentos. Cristo, aos 33 anos, celebrou uma ceia de despedida com os mais íntimos e disse que esse era o grande memorial da redenção. Uma mesa partilhada na fraternidade, na qual todos tenham seu posto e seu lugar. . . É o amor da fraternidade partilhada que rompe e põe abaixo todo tipo de barreiras, preconceitos, e há de superar o próprio ódio”(p. 159).

Este texto, por mais belo que seja do ponto de vista humano, silencia o principal da Eucaristia, que é a perpetuação do sacrifício de Cristo.

Estes traços do livro de Jon Sobrino oferecem uma noção suficientemente clara do pensamento do autor ou do tipo de Cristologia que ele apresenta. Os mesmos dados nos sugerem algumas reflexões.

2. REFLETINDO

São três os pontos que mais atenção parecem merecer

2.1. Práxis-Lógos ou Lógos-Práxis?

O próprio método da Teologia da Libertação, como tal, já é criticável, pois submete o aprofundamento da Palavra de Deus a determinada premissa, à qual a Teologia deve servir. Na verdade, a Teologia é ciência que se subordina tão somente ao saber de Deus, do qual ela é uma participação, como ensina S. Tomás de Aquino (cf. Suma Teológica I, qu. 1, art. 2). Ela recorre a ciências auxiliares como a Filosofia, a Lingüística, a Arqueologia, a História, mas tem como objetivo único conhecer melhor a Deus e seu plano salvífico. Está claro que, entre as conclusões de ordem prática deste conhecimento, está o dever moral de tornar a sociedade dos homens mais justa e fraterna. Este ditame é imperioso, porque decorrente da própria Revelação Divina. Não é necessário que o cristão recorra a instâncias filosófico-materialistas para se convencer de seus deveres sociais.

Com outras palavras: é despropositado ler a S. Escritura a partir da ótica do pobre, do homem latino-americano ou mesmo. . . da mulher. . . Qualquer destas atitudes significa estreitar os horizontes da mensagem bíblica, se não mesmo distorcê-la. A Constituição Dei Verbum no 12, do Concílio do Vaticano II, diz-nos que “a S. Escritura há de ser lida e interpretada segundo o Espírito que a escreveu”; isto implica que, “para apreender com exatidão o sentido dos textos sagrados, se deve atender com não menor diligência ao conteúdo e à unidade de toda a Escritura, levadas em conta a Tradição viva da Igreja toda e a analogia da fé” (ib.).

Em conseqüência, vê-se que o binômio Práxis-Lógos deturpa o conteúdo da Escritura, pois de antemão define as conclusões a que o teólogo deve chegar. Mantenha-se a ordem clássica “Lógos-Práxis” e certamente os pobres não serão menos bem considerados, como atestam as encíclicas da Doutrina Social da Igreja, que vêm acompanhando a evolução da questão social desde 1891 (Rerum Novarum de Leão XIII).

A propósito da Teologia da Libertação ver:

Congregação para a Doutrina da Fé, Instrução sobre alguns aspectos da Libertação (Libertatis Nuntius).Cidade do Vaticano, 1984.

Instrução sobre a Liberdade Cristã e a Libertação. Cidade do Vaticano, 1986.

Paschoal Rangel, Teologia da Libertação, Belo Horizonte, 1989.

2.2. O Reino de Deus e os Pobres

O Reino de Deus é aberto a todos os homens indistintamente: todos, ricos e pobres, são chamados a ele, desde que se queiram converter ou fazer metánoia, mudança de mentalidade e, conseqüentemente, abandonem qualquer tipo de vida desregrada.

A pobreza e a riqueza, materialmente entendidas, são algo de neutro no plano ético. O fato de alguém ser pobre não é garantia de comunhão com Deus, nem o fato de ser rico priva dessa comunhão, desde que o seja honestamente. São, sim, as qualidades morais que recomendam ou não o homem a Deus. Por isso, as bem-aventuranças, em Mt 5,3-12, tomam caráter nitidamente ético, completando e precisando o teor das bem-aventuranças em Lc 6, 20-26: “Bem-aventurados os pobres em espírito. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça. Bem-aventurados os mansos, os misericordiosos, os puros de coração, os pacíficos, os perseguidos por causa da justiça. . .”.

Jesus teve a migos da alta sociedade judaica, aos quais não pediu que abandonassem a sua riqueza: assim Nicodemos (cf. Jo 3,1; 19,39), José de Arimatéia (cf. Jo 19,38), as mulheres mencionadas em Lc 8,1-3; Lázaro, Marta e Maria (Lc 10,38-42) não parecem ter sido pobres. São Paulo faz recomendações aos cristãos “ricos deste mundo” (1Tm 6,17-19), mas não manda que se tornem materialmente pobres. Por conseguinte, a opção que os Bispos fizeram pelos pobres em Medellín (1968), Puebla (1979) e Santo Domingo (1992) não é excludente, nem exclusiva; é preferencial no sentido de que o pobre parece ser o destinatário mais carente da Boa-Nova do Evangelho. Mesmo assim é de notar que o conceito de pobre nos documentos de Puebla e Santo Domingo é amplo: pobres são todos aqueles que carecem. . ., sendo que os pobres, materialmente falando, merecem especial atenção porque não somente carecem, mas geralmente não possuem os recursos culturais e humanos para sair da sua carência.

Nesta acepção, “pobres” são também aqueles que, embora possuam bens materiais, carecem de bens espirituais ou de orientação e sentido de vida; são aqueles que experimentam o desânimo e o desespero dentro de habitações luxuosas. . .; os que procuram uma resposta para seus anseios no libertinismo, na droga, no prazer desenfreado. . .; são os que se entregam ao crime porque nunca tiveram a educação que pai e mãe oferecem de maneira insubstituível. . . O próprio documento de Puebla (DP) explica a sua concepção de “pobre”, que, no caso, independe de condição social. Assim, por exemplo, se lê em tópicos diversos:

“Preocupam-nos as angústias de todos os membros do povo, qualquer que seja a sua condição social: sua solidão, seus problemas familiares, a falta de sentido que não poucos vêem na vida. E mais especialmente queremos hoje compartilhar as angústias que nascem de sua pobreza” (no 27).

“Angústias provocadas pela violência da guerrilha, do terrorismo e dos sequestros, efetuados por extremistas de sinais diversos, que comprometem igualmente o convívio social” (no 43).

“Os Religiosos. .. acompanham os que sofrem por causa da injustiça, por causa da falta do senso profundo da existência humana e por causa da fome de paz, verdade e vida” (no 743).

Em conseqüência, o documento de Puebla afirma que o melhor serviço a ser prestado aos pobres é o da evangelização:

“O melhor serviço ao Irmão é a evangelização, que o dispõe a realizar-se como filho de Deus, o liberta das injustiças e o promove integralmente” (no 1145).

Como se vê, a evangelização tem em mira o homem todo, seja no plano espiritual, seja no corporal. Antes do mais, ela o leva à vida de filho de Deus, cultivando a dimensão religiosa, que é congênita em todo homem e que, por certo, existe também nos pobres e oprimidos. Mas ela se interessa outrossim para que o filho de Deus viva em condições condizentes com a sua dignidade, usufruindo de todos os direitos que lhe tocam. Não há, pois, dicotomia entre o anúncio religioso e o atendimento material; este, aliás, sem aquele não poderia satisfazer às aspirações do pobre.

Faz-se mesmo oportuno dizer: a tarefa de dispor alguém a tornar-se filho de Deus ou a converter-se do pecado à graça é a tarefa palmar, própria e específica da Igreja. Quanto à luta contra as injustiças e à promoção do homem, a Igreja se empenha por tais objetivos, porque o homem não é apenas espírito, mas tais metas não são exclusivamente próprias da Igreja; esta não pode prometer a realização perfeita de todas as aspirações econômicas e profissionais dos homens, pois “a missão da Igreja não é de ordem política, econômica ou social” (Constituição Gaudium et Spes n9 42). A Igreja sabe que não tem competência para propor modelos alternativos à sociedade (DP n? 1211). Diz oportunamente Paulo VI na encíclica “Populorum Progressio” no 13:

“Fundada para estabelecer desde já o Reino dos céus e não para conquistar um poder terrestre, a Igreja afirma claramente que os dois campos são distintos um do outro, da mesma maneira como são soberanos os dois poderes, o eclesiástico e o civil, cada qual no seu terreno próprio.”

Foi por tais motivos que o S. Padre João II, ao dirigir-se aos operários de Monterrey (México), ponderou o seguinte:

“Jesus Cristo. . ., antes de transformar a existência cotidiana, soube falar ao coração dos pobres, libertá-los do pecado, abrir seus olhos para um horizonte de luz e enchê-los de alegria e esperança” (texto citado pelo DP nÇ 1153).

O Documento de Santo Domingo (1992) retoma o mesmo conceito de “opção preferencial” e de “pobre”, quando afirma em seu § 178:

“Esta é a fundamentação que nos compromete numa opção evangélica e preferencial pelos pobres, firme e irrevogável, mas não exclusiva nem excludente, tão solenemente afirmada nas Conferências de Medellín e Puebla. O amor misericordioso é também voltar-se para os que se encontram em carência espiritual, moral, social e cultural.

Pobres, portanto, são todos os que sofrem de alguma carência, seja material, seja espiritual, seja moral. , . Para estes se volta prioritariamente o zelo pastoral da Igreja a título muito compreensível. Vejam-se também os §§ 85c e 296a do Documento de Santo Domingo.

J. Sobrino cita o Documento de Puebla, artigo 1142, como fundamento de sua tese: “Os pobres merecem uma atenção preferencial, seja qual for a situação moral ou pessoal em que se encontrem”. É certo que a caridade cristã deve atender a qualquer pessoa carente, qualquer que seja a sua crença religiosa ou a sua conduta de vida; isto, porém, não quer dizer que, para a admissão no Reino de Deus, não se requeira a conversão dos corações ou uma atitude ética renovada; o próprio Documento de Puebla pouco adiante observa:

“Para o cristão, o termo ‘pobreza’ não é somente expressão de privação e marginalização de que nos precisemos libertar. Designa também um modelo de vida que desponta no Antigo Testamento, no tipo dos pobres de Javé, e é vivido e proclamado por Jesus como bem-aventurança (cf. Mt 5,3)” (n? 1148; ver também no 1149s).

Passemos agora em revisão a figura de Jesus Cristo proposta por Sobrino.

2.3. Jesus Cristo, o Libertador

Embora J. Sobrino queira guardar a noção ortodoxa definida pelo Concílio de Calcedônia, afasta-se da mesma quando apresenta Jesus a ignorar o desfecho de sua missão terrestre; Ele se teria enganado a respeito da data de irrupção do Reino de Deus; ter-se-ia enganado quanto ao modo e ao significado de sua morte. Conseqüentemente, não terá dado à Eucaristia o sentido que a Igreja lhe atribui. — Foram estas algumas das teses que provocaram a contestação oficial da Igreja ao livro de Leonardo Boff: “Jesus Cristo Libertador”.([1])— Na verdade, tal concepção de Jesus reduz o Divino Mestre à categoria de mero homem, que ignora o futuro que lhe concerne; é gratuita, pois não leva em conta toda a riqueza da mensagem do Novo Testamento; sugere-a o racionalismo de escolas protestantes liberais da Europa.

O Concílio de Calcedônia declarou nitidamente:

“Ressalvadas as propriedades específicas de uma e outra natureza, que se uniram numa só pessoa, a humanidade foi assumida pela majestade…a natureza inviolável uniu-se à natureza passível. .. Na verdade, cada uma das naturezas conserva integralmente o que lhe é próprio” (Denzinger-Schónmetzer, Enquirídio no 292).

“Cada uma das duas naturezas realiza, permanecendo em comunhão com a outra, o que lhe é próprio, e assim o Verbo opera o que compete ao Verbo, ao passo que a carne executa o que compete à carne. É deste modo que uma natureza brilha pelos milagres que faz, enquanto a outra natureza sucumbe sob os ultrajes que sofre” (ib. no 293).

Portanto, ao fazer-se-homem, o Filho de Deus nada perdeu do que lhe toca como Deus, a saber: o seu poder de fazer milagres (ressuscitar mortos, converter água em vinho, multiplicar pães. . .) e o seu saber pleno a respeito do passado, do presente e do futuro.

Ainda merece atenção o seguinte: é gratuito dizer que as narrações da última ceia são “teologizadas” ou não correspondem exatamente à realidade histórica. Aliás, verifica-se mais de uma vez que, para manter suas teses diante de trechos do Evangelho que lhe fazem obstáculos, Sobrino recorre à alegação de que tais passagens são “teologizadas” ou são elaborações teológicas incutidas pelos antigos cristãos à narração evangélica. Eis um espécimen significativo:

“Em quase todas estas passagens não se menciona que Jesus perdoa pecados, mas se mostra diretamente sua ‘acolhida’ terna e carinhosa aos pecadores. Em duas passagens, porém, se diz que Jesus concede ‘perdão’ ao paralítico (Mc 2,10) e para a mulher pública (Lc 7,48); mas as duas passagens não são históricas e sim redacionais e, por isto, dum ponto de vista histórico, deve-se falar mais de acolhida aos pecadores do que de perdão de pecados. E isto é importante para compreender a Jesus. Assim como não aparece como taumaturgo ou exorcista, tampouco aparece diretamente como ‘confessor absolvedor’ de pecados. O que faz com o pecador é muito mais do que isso: é acolhê-lo. E desta forma anuncia a vinda do reino de Deus” (p. 148).

Neste texto Jon Sobrino revela seu modo de ver secularista ou laicista: Jesus não realizou uma tarefa religiosa propriamente dita, não perdoou pecados tratando de reconciliar os homens com Deus, mas veio trazer acolhida e benevolência a todos num plano que poderia ser o de um grande líder filantrópico. Por isto, quando o Evangelho atribui a Jesus a função de perdoar pecados, Sobrino a tem como não histórica, mas como artifício devido aos redatores do Evangelho! É expediente barato e fácil alegar construções não históricas, mas redacionais, quando o texto bíblico não corresponde àquilo que o estudioso nele quer descobrir. É de notar, outrossim, que os escritos de São Paulo, São Pedro e São João (portadores de bela elaboração teológica e cristológica) são considerados por J. Sobrino principalmente na medida em que falam de amor ao próximo, de Jesus pré-pascal e da imitação de Jesus lutador, fazendo-se abstração dos títulos de Jesus pós-pascal: Senhor, Cabeça da Igreja, novo Adão. .  Cf. pp. 90-94.

3. CONCLUSÃO

Eis algumas reflexões que a leitura do livro de Jon Sobrino nos sugere. A obra não corresponde à doutrina da fé 1) pela sua maneira de encarar a pessoa e a obra de Jesus e 2) pelo seu caráter dualista e agressivo no plano social: divide a sociedade em “reino de Deus” e “anti-reino de Deus”, propondo entre uma e outra facção a luta de classes e o uso da violência mesma (cf. p. 318). O critério para avaliar os homens seria a posse de bens temporais; esta é sempre tida como iníqua, independentemente das qualidades morais do proprietário. Ora, isto fere a mais fundamental proposição do Evangelho, para o qual o coração do homem tem valor decisivo; está claro, porém, que um coração reto e puro saberá renunciar e despojar-se quando necessário. Na base desta premissa, riqueza e pobreza ficam sendo a moldura que resulta de atitudes interiores assumidas pelo homem perante Deus.

Cremos poder concluir que o livro é secularista, laicista, reduzindo o Divino ao humano e insinuando uma sociedade de cunho socialista-marxista. Não se pode deixar de lembrar aqui a afirmação de alguns teólogos que, ao regressarem de uma viagem a Cuba, declararam que na ilha já começara o reino de Deus, porque puderam apreciar o esforço do governo cubano em prol da educação (marxista) dos pequenos, adolescentes e jovens! — Pode-se realmente dizer que o Reino de Deus começou em Cuba, onde a Igreja está reduzida ao silêncio e à sufocação? Ver a Carta dos Bispos de Cuba às pp. 2-11 deste fascículo.


[1] Ver PR 230/1985, pp. 257-267.





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