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Um olhar de fé. “SEDE SOLIDÁRIOS COM OS SANTOS NAS SUAS NECESSIDADES” (Rm 12,13)

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 386/julho 1994

Teologia

Em síntese: O drama da ex-lugoslávia fala profundamente ao coração de todo homem de bom senso, especialmente ao do cristão. Do ponto de vista meramente humano ou racional, pouco há a fazer, se alguém não tem poder decisório sobre a situação. Todavia aos olhos da fé a tragédia suscita a necessidade de compartilhar, solidarizar-se mediante a oração e a expiação. Não ser indiferente à dor alheia, mas pedir ao Pai que a alivie e que perdoe os pecados cometidos, é o que faz o cristão neste momento. As páginas que se seguem, apresentam textos bíblicos e considerações de autores cristãos relativas ao sofrimento e à expiação.

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“Cristo estará em agonia até o fim dos tempos”.

O S. Padre João Paulo II tem citado as palavras acima, da pena de Blaise Pascal (+1662), ao referir-se ao drama da ex-lugoslávia; as vítimas inocentes da guerra são tantas e tão maltratadas que o coração do cristão se sente dilacerado e só pode encontrar consolo nos valores da fé; é o sentido do sofrimento apregoado por Jesus Cristo que esclarece os horizontes do cristão e lhe sugere a adequada resposta a tão clamoroso sinal dos nossos tempos. É esta temática que vamos abordar no presente artigo, sendo que, às pp. 318-322 deste fascículo se lerá o testemunho de uma Religiosa bósnia, vítima da situação.

1. OS TRAÇOS DA TRAGÉDIA

Entre os muitos documentos que retratam a situação na ex-lugoslávia, está uma mensagem de Mons. Vinko Puljic, arcebispo de Serajevo, datada de 2/12/93, da qual transcrevemos um dos trechos mais expressivos:

“Em Serajevo cada dia vê surgir novos dramas: as pessoas morrem ou são feridas. Os sérvios bombardeiam a cidade com mais de seiscentas peças de artilharia. Dentre os 300.000 habitantes que ficaram em Serajevo, cerca de 10% são católicos croatas, 15% são sérvios e os demais são muçulmanos. Para todos a situação é muito precária: alimentação, eletricidade, aquecimento e remédios estão em míngua. Já há dezenove meses que sofremos o bloqueio e talvez os católicos mais do que os outros, pois a propaganda da mídia exerce sobre nós pressões crescentes. A brigada croata que tinha ajudado a defender a cidade desde o início da guerra foi desarmada pelo exército bósnio. Os católicos vivem em pânico crescente e na incerteza do futuro. Alguns perdem o emprego; outros são expulsos de casa; os suicídios são freqüentes e o sofrimento é cada vez menos suportável. Mesmo em cidades como Vitez, Busovaca, Kiseljac, Novi-Travnik e Zepce, grande parte dos católicos estão cercados em seus próprios quarteirões. O exército bósnio não cessa de realizar ataques, além do que a alimentação só chega em exíguas porções…

As estradas estão bloqueadas por facções armadas de tendências diversas. Numerosos comboios são saqueados. Centenas de refugiados estão sem abrigo. Em Serajevo e em muitas outras cidades, as janelas foram tapadas com folhas de plástico; também os tetos são assim consertados, mas esse material não resiste ao peso da neve. Neste ano o inverno veio mais cedo e assistimos a número crescente de falecimentos, pois as pessoas perderam suas defesas naturais por efeito da má alimentação, das privações, dos sofrimentos físicos e psíquicos; são mais vulneráveis às doenças. Os hospitais estão superlotados, os medicamentos são raros e os feridos são prematuramente mandados para casa…

Para aqueles que não puderam impedir esta tragédia, o sofrimento de milhares de pessoas do meu país parece pouca coisa. Para muitos católicos, muçulmanos e ortodoxos que são inocentes e foram arrastados nesta guerra, a situação é insustentável. Nós, católicos croatas da Bósnia, vemo-nos à margem do aniquilamento, estando destruídos mais de dois terços da nossa diocese…

Pedimos particularmente aos nossos irmãos católicos que nos ajudem a viver em terras que são também nossas há treze séculos…

Possam todos os países que vivem em paz jamais conhecer o horror da guerra! E que os países, como o meu, em que ela campeia de modo espantoso, vejam num próximo futuro chegar uma paz justa”

Estas palavras dramáticas do arcebispo de Serajevo não podem deixar de calar fundo no ânimo dos leitores. Procuremos refletir sobre elas à luz da Escritura e da Tradição, que nos sugerem solidariedade e expiação na Comunhão dos Santos.

2. SOLIDARIEDADE E EXPIAÇÃO NA ESCRITURA

2.1. No Antigo Testamento

1. Partiremos de um episódio fundamental do Antigo Testamento.

Em Ex 32,1-14 lemos que o povo de Israel no deserto fabricou um bezerro de ouro falso símbolo da presença de Javé. O pecado foi grave. Ao percebê-lo, Moisés pôs-se a interceder pela sua gente, solidário com Israel:

“Por que, ó Senhor, se acende a tua ira contra o teu povo, que fizeste sair do Egito com grande poder e mão forte?… Abranda o furor da tua ira e renuncia ao castigo que tencionavas impor ao teu povo. Lembra-te dos teus servos Abraão, Isaque e Jacó, aos quais juraste por ti mesmo, dizendo: ‘Multiplicarei a vossa descendência como as estrelas do céu…‘ ” (Ex 32, 11-13).

Mais adiante lê-se que Moisés tornou a rezar ainda com mais empenho:

“Este povo cometeu um grave pecado ao fabricar um deus de ouro. Agora, pois, Senhor, se perdoasses o seu pecado… Se não, risca-me, peço-te, do livro que escreveste” (Ex 32,31s).

Esta passagem é muito significativa, porque mostra que Moisés, embora estivesse isento de culpa, não quis dessolidarizar-se do seu povo; não poderia salvar-se sem a sua gente, pois identificou o seu destino com o do povo prevaricador (na verdade sabemos que nem Moisés nem o povo entraram ne terra de Canaã).

No Antigo Testamento encontramos outro episódio que incute a solidariedade do justo com os pecadores, podendo a justiça de uns obter o perdão para os prevaricadores. Com efeito; tal é o caso de Abraão, que intercede por Sodoma, merecedora da punição divina: o Patriarca aponta os justos (cinqüenta, quarenta e cinco, quarenta… dez) que eventualmente existam na cidade, e obtém de Deus o perdão para Sodoma, caso realmente existam dez justos na cidade; cf. Gn 18,22-32. — Mais uma vez vemos que o Senhor quer salvar a uns mediante outros, que pela oração e a expiação se tornam tutores de seus irmãos.

Esta concepção chega ao seu auge na figura do Servo de Javé em Is 52, 13-53, 12: Ele, inocente, assume sobre si os pecados alheios e aceita a sentença da Justiça Divina a fim de merecer a salvação para os pecadores:

“Todos nós, como ovelhas, andávamos errantes… mas o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de todos nós… Se ele oferece a sua vida como sacrifício pelo pecado, certamente verá uma descendência, prolongará os seus dias… O Justo, meu Servo, justificará a muitos e levará sobre si as suas transgressões” (Is 53,6.10.11).

O Servo de Javé, assim apresentado, esboça os traços do Cristo Jesus, do qual mais explicitamente trataremos sob o subtítulo 2.2.

2. A intercessão dos justos em favor dos pecadores aparece em todo o Antigo Testamento:

. Assim Moisés de novo ora pelo povo que murmurava no deserto inóspito, desejando voltar à escravidão do Egito:

“Se fazes perecer este povo como um só homem, as nações que ouviram faiar de ti, Senhor, dirão: ‘Javé não pôde fazer este povo entrar na terra que lhe havia prometido com juramento e, por isto, o destruiu no deserto’. Não! Que agora a tua força, Senhor, se engrandeça’. Segundo a tua palavra, Javé é lento para a cólera e cheio de amor; tolera a falta e a transgressão… Perdoa, pois, a falta deste povo segundo a grandeza da tua bondade, conforme o tens tratado desde o Egito até aqui’ (Nm 14,15-19).

Ver ainda Nm 11,2; 16,22; 21,7; Dt 9,25-27; SI 106,23.

Até mesmo em favor do Faraó Moisés é chamado a interceder: Ex 8,4; 9,28; 10,17.

Moisés e Samuel são todos tidos como os grandes intercessores em favor de Israel: Jr 15,1; SI 99,6; Eclo 45,3.

Em 2 Mc 15,12-15 percebe-se algo de novo: mesmo depois de falecido, Jeremias profeta ora em favor do seu povo o que mostra que já no Antigo Testamento havia a consciência de que a morte não extingue a comunhão dos santos; os justos continuam solidários com seus irmãos peregrinos e oram em favor destes:

”Apareceu a Judas Macabeu um homem notável pelos cabelos brancos e pela dignidade, sendo maravilhosa e majestosíssima a superioridade que o circundava. Tomando então a palavra, disse Onias: ‘Este é o amigo dos seus irmãos, aquele que muito ora pelo povo e pela cidade santa, Jeremias, o profeta de Deus’ ” (2Mc 15,13s).

2.2. O Cristo Jesus

Moisés, Abraão, Jeremias, o Servidor de Javé são figuras do Cristo Jesus, Sumo Sacerdote e Mediador.

S. Paulo apresenta Cristo sobre o fundo de cena do Antigo Testamento:

“Aquele que não conhecera o pecado, Deus o fez pecado por causa de nós, a fim de que, por Ele, nos tornássemos Justiça de Deus” (2Cor5,21).

“Deus o fez pecado (hatta’t)”. Esta palavra tem aqui o sentido de sacrifício/vítima pelo pecado. O Pai tornou Cristo solidário com o gênero humano pecador para que nos tornássemos solidários com o Filho de Deus, feitos filhos no FILHO.

A mesma concepção volta em Hb 2,14:

“Uma vez que os filhos têm em comum sangue e carne, por isto Ele participou da mesma condição, a fim de destruir pela morte o dominador da morte, isto é, o diabo, e libertar os que passaram toda a vida em estado de servidão, pelo temor da morte.”

Com outras palavras: Cristo não ficou distante dos pecadores, mas inclinou-se sobre a miséria dos homens, feito em tudo semelhante a estes, exceto no pecado. Por isto Ele pode interceder eficazmente em favor do povo. É esta uma das grandes teses da epístola aos Hebreus.

A presença de Cristo entre os pecadores chegava a escandalizar os justos da época:

Lc 15,2: “Os fariseus e os escribas murmuravam: ‘Este homem recebe os pecadores e come com eles’ “.

Lc 7,39: “Dizia então Simão, o fariseu: ‘Se esse homem fosse profeta, bem saberia quem é a mulher que o toca, porque é uma pecadora’ “.

Cristo quis mesmo ser tentado, porque nós o somos e necessitamos da vitória de Cristo para vencer nossas tentações; cf. Mt 4,1-10; Lc 4,1-13.

3. SOLIDARIEDADE E EXPIAÇÃO NA VIDA CRISTÃ

O exemplo de Cristo é fundamental para o cristão. Na verdade, ninguém vive sozinho a sua própria vida. Abstraindo de razões sociológicas e psicológicas, sabemos que, pela comunhão dos santos, somos solidários entre nós. À guisa de vasos comunicantes, comungamos com o destino do mundo e da Igreja.

Principalmente os enigmas do mal, da violência e da morte afetam o cristão e o fazem sofrer. Impelem-no a olhar para Cristo. Jesus também compartilhou o sofrimento dos homens e sofreu com eles; cf. Mc 6,34; 8,12; 9,21-27; Lc 22,39-46… Não quis viver no mundo como um estranho impassível.

Por isto o cristão aceita as dores desta vida em união com Cristo; procura mesmo espontaneamente configurar-se a Cristo Sacerdote e Vítima. Sabe que, desta maneira, “completa em sua carne o que falta à Paixão de Cristo em favor do Seu Corpo, que é a Igreja” (Cl 1,24). A Paixão de Cristo assume um suporte e uma moldura novos todas as vezes que um cristão padece unido a Cristo; já não é o sofrimento de um mero ser biológico, mas é um tanto da obra corredentora de Cristo que assím se exerce. Notemos que, após professar a Comunhão dos Santos, o Credo afirma a ressurreição da carne e a vida eterna.

Estas verdades podem ser ilustradas por uma página do missionário dominicano, o Pe. de Beaurecueil, no seu livro Hemos Compartido el Pan y la Sal. Neste relato cronístico, ele se apresenta como o único padre católico no Afeganistão, impedido de pregar o Evangelho e reduzido à quase inércia. Ele se interroga sobre a sua aparente ineficácia e finalmente encontra sentido para sua vida na oração que ele faz pelo povo miserável que o cerca, povo com o qual ele compartilha o pão e o sal:

“Assim durante a noite, enquanto o meu povo dorme, descalço e encolhido no fundo da minha capelinha, eu me faço seu intercessor. Como Abraão, como Jacó, como Moisés, como Jesus… Um pequeno ramo de sândalo exala o seu perfume, símbolo de todos aqueles que hoje se consumiram na luta rude, no sofrimento e no amor… E fico na capela, esmagado por todas as faltas do meu povo, aflito por todos os seus pesares, carregado de todas as suas esperanças… A todos quantos hoje adormeceram pensando encontrar um juiz, apresento-os ao Salvador e os introduzo nas núpcias eternas. A todas as crianças que hoje nasceram, faço-as filhos de Deus. Todas as orações que foram ditas hoje nas mesquitas e nas casas, eu as transformo em Pai-Nosso. Meu coração não é senão o crisol no qual, ao fogo do amor de Cristo, todas as nossas ligas de metal se transformam em ouro.

E através dos meus lábios, que eu lhes empresto, todo o Afeganistão eleva ao Pai esse Abba que o Espírito lhe sopra”.

O caso do Pe. de Beaurecueil é típico. Brota do âmago da fé. E é lição para cada cristão posto diante do sofrimento e dos problemas deste mundo.

Estas reflexões sugerem ainda algumas ponderações sobre o significado da dor na vida dos homens.

4. O SENTIDO DO SOFRIMENTO

De 12 a 17 de outubro de 1989 reuniu-se em Roma o 7o Simpósio dos Bispos da Europa. Tinha por tema: “As Novas Atitudes diante do Nascimento e da Morte como Desafios à Evangelização”; foram abordadas então questões relacionadas com a terapêutica moderna, que proporciona o parto sem dor, a eliminação do feto deficiente, a obstinação terapêutica, a eutanásia… Registrou-se na sociedade contemporânea forte tendência a evitar a dor, independentemente de princípios de Ética natural e de fé. A propósito interveio, com grande repercussão na imprensa, Mons. Karl Lehmann, bispo de Mogúncia e Presidente da Conferência dos Bispos da Alemanha; propôs uma visão de fé sobre o sofrimento, que de certo modo contrastava com as concepções mais freqüentes na sociedade moderna:

“A nossa sociedade espera que o crescente domínio dos processos vitais acarrete a supressão da dor e do sofrimento… A dor é geralmente considerada na perspectiva da supressão. Isto vale tanto para a mulher que dá à luz e quer evitar a dor, como para o moribundo que se extingue na noite da inconsciência, tendo afastado todo sofrimento…

Ora, a capacidade de sofrer é própria do homem. O sofrimento proporciona a possibilidade de um derradeiro amadurecimento. É certo, porém, que ele não age automaticamente. Há sofrimentos físicos insuportáveis que podem sufocar qualquer capacidade de sofrer. Em certas circunstâncias, combater a dor é a condição necessária para que o homem a possa assumir…

O ideal de uma vida sem dor não é mau em si. Ele está presente em todos os sonhos de uma vida melhor e mais feliz. Mas não podemos amordaçar completamente a dor sem tirar à vida a necessária ansiedade interior que a estimula. A cultura dos analgésicos não redunda em serviço para o homem… A anestesia da vida é um inimigo fundamental da sociedade humana. Não só ela nos torna incapazes de suportar nossos sofrimentos próprios, mas também ela nos torna ineptos para perceber e compartilhar os sofrimentos alheios…

O símbolo dos sofrimentos de cada um e do mundo é a cruz. Somente quando a carregamos é que nos comportamos como discípulos de Jesus Cristo. Não podemos, sem mais, lançar um véu sobre estas partes integrantes da vida que são os reveses, o sofrimento, a doença e a morte. São o lado avesso da vida. Mas tais sombras não dizem a última palavra. Visto que Jesus Cristo não permaneceu na morte, existe uma nova esperança para todos aqueles que assumem a sua dor e pedem perdão” (La Documentation Catholique, 75/71/1989, n? 1994, p. 1007).

É valiosa a coragem de Mons. Lehmann de afirmar o valor do sofrimento não só no plano da fé, mas também no da formação humana. Isto não implica rejeitar os progressos da medicina, mas significa preservar a têmpera do homem, que só se engrandece pela luta e a mobilização de suas energias espirituais. “A cultura dos analgésicos não redunda em serviço do homem.”

Podemos, aliás, acrescentar a seguinte observação: quanto mais perfeito é um ser, tanto mais sujeito está ao sofrimento. Com efeito: os minerais não sofrem em absoluto; já as plantas reagem às agressões, restaurando-se em muitos casos; os animais irracionais gemem e choram. O homem sofre mais ainda, porque não só sente, mas tem ideais e metas a atingir. Dentre os homens, os mais retos e nobres sofrem mais do que os tarados. O sofrimento está, pois, ligado à perfeição e à nobreza de um ser.

Muito importante, no mesmo Simpósio, foi também a conferência do Cardeal Carlo Maria Martini, de Milão, da qual vai extraído o seguinte trecho:

“Lembremos que, na maioria das sociedades tradicionais, o nascimento e a morte são acontecimentos sociais, altamente ritualizados, perfeitamente integrados na vida cotidiana das famílias e das comunidades humanas. O mesmo se diga do casamento.

Ora, o progresso da medicina, sem que alguém tenha desejado tal efeito, implicou o exílio do nascimento e principalmente da morte para fora do quadro da família e da vizinhança por causa das exigências da técnica.

Assim, já que não é mais costume nascer em casa, como há trinta anos, as pessoas correm o risco de tornar-se estranhas aos acontecimentos importantes da sua própria vida: em particular, perdem a experiência da morte — o que aumenta a sua angústia nesta perspectiva.

Disto se segue a banalização da vida cotidiana, que perde algo da sua seriedade e profundidade. A morte torna-se conhecida principalmente como um espetáculo nas telas: ninguém mais aprende como se comportar diante de um moribundo e como viver o luto.

Muito grande proporção de pessoas, talvez 70% nos países desenvolvidos, morrem nos hospitais, se não na completa solidão, longe ao menos da família. Tal morte na solidão é desumana, pois a solidariedade faz falta nesse momento crucial da existência.

Como vemos por este último exemplo, a medicina e seus progressos técnicos são apenas um fator do fenômeno observado. A medicina como tal não explica que se extenue e perca a solidariedade entre as gerações: o fator principal está nas modalidades de vida dos cidadãos (dispersão dos membros da família, horários impeditivos, etc.) e nas atitudes dos que têm poder decisório na política e na economia: dimensões das moradias, medidas sanitárias relativas aos idosos, etc.

Vemos que se trata de dominar um conjunto de fatores determinantes da vida cotidiana. Quando a população não sabe reagir, de maneira criativa, aos riscos da desumanização, seguem-se sentimentos de frustração, amargura, solidão e angústia” (ib., p. 1015).

A seu modo o Cardeal Martini considera a desumanização (à primeira vista, atraente) que os progressos da técnica acarretam para a existência do homem: o caráter sacral ou o valor de mistério da vida vão-se apagando em favor da funcionalidade dos recursos mecânicos que invadem sempre mais a família e a sociedade. Verdade é que a rotina de cada dia se torna assim mais fácil e cômoda, mas é ameaçada a têmpera viril e magnânima que deve caracterizar toda e qualquer existência humana.

Ora os itens 1, 2 e 3 deste artigo focalizavam o outro aspecto do problema: que o cristão saiba considerar de frente o sofrimento e a morte, sem fugir da perspectiva que lhes é peculiar, e transforme isso em motivo de engrandecimento na fé, na solidariedade, na expiação, em suma… na configuração a Cristo!





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