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O Desafio de ser Igreja no terceiro milênlio: a proposta de Paulo

 

1. O contexto de Paulo
Por muito tempo tentou-se identificar quem teria influenciado mais a Paulo: o patrimônio cultural judaico, ou o helenístico. Quando se trata de Paulo, é importante lembrar que no início da era cristã o judaísmo e o helenismo já haviam trocado experiências mútuas por mais de três séculos. O judaísmo procurava seguir as tradições do Antigo Testamento; o helenismo, espalhado pelo mundo a partir de Alexandre Magno, se enraíza nas tradições imemoriais da cultura grega. No decurso dos séculos o helenismo acolheu muitas correntes religiosas e filosóficas. Consiste, portanto, de um verdadeiro emaranhado cultural.

Para compreender Paulo, é importante lembrar-se que ele é um judeu, provindo do mundo helenístico.

2. Paulo: judeu e grego
Paulo gloria-se de sua origem judaica. Em face aos seus adversários judeus diz: “São hebreus? Também eu. São israelitas? Também eu. São descendentes de Abraão? Também eu” (2Cor 11,22). Na carta aos Filipenses, dirige-se mais uma vez aos seus opositores, frisando a sua descendência judaica:

“Se algum outro pensa que pode confiar na carne, eu ainda mais: circuncidado ao oitavo dia, da raça de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu, filho de hebreus; quanto à Lei, fariseu” (Fl 3,4s).

Além disto, acentua na carta aos Romanos: “Eu também sou israelita, da descendência de Abraão, da tribo de Benjamim” (Rm 11,l). E na carta aos Gálatas, Paulo insiste: “…progredia no judaísmo mais do que muitos compatriotas da minha idade, distinguindo-me no zelo pelas tradições paternas” (Gl 1,14).

Por estas afirmações de Paulo, fica claro que ele cresceu nas tradições dos pais, isto é, do Antigo Testamento. Gloria-se de sua descendência. E, de fato, os conhecimentos que demonstra ter do Antigo Testamento (AT) confirmam as suas declarações. Também os Atos dos Apóstolos (At 22,3) nos falam da ligação de Paulo com a cultura do AT. Segundo os Atos, Paulo foi levado para Jerusalém, a fim de ser instruído na Lei. Em suas cartas, Paulo cita 87 vezes o AT. Estas citações foram retiradas de 16 livros bíblicos. Os mais citados são: o Pentateuco, 29 vezes; o profeta Isaías, 25 vezes; os Salmos 18 vezes. Mas Paulo não cita sempre literalmente as passagens vetero-testamentárias. A maioria de suas citações diverge um pouco do texto tido como original, adaptando-se à situação nova do Apóstolo e das comunidades cristãs. Mesmo assim, os escritos de Paulo revelam que ele é um profundo conhecedor da teologia do AT. O estilo e os conceitos estão, muitas vezes, de tal forma, marcados pelo AT, que se torna difícil discernir entre as interpretações dos textos e as intuições originais de Paulo. Por isto, pode-se afirmar com certeza que o elemento cultural, de maior repercussão na vida e nas idéias de Paulo, é o Antigo Testamento.

Portanto, embora Paulo tivesse nascido no mundo cultural grego e se convertesse ao cristianismo, de fato ele nunca renegou seu povo e sua cultura. Israel permaneceu, para ele, o povo eleito, e Cristo sua herança (Rm 9,4s). Não poucas vezes, Paulo fundamenta a autoridade de sua doutrina com a fórmula: “como está escrito” (kathòs gégraptai). No mundo grego esta expressão valia como aceitação, sem restrições, daquilo que se citava; para os judeus, a mesma fórmula, exprimia a imutabilidade da palavra de Deus. Além desta, havia outras fórmulas com a mesma força, como: “Deus diz”, “a Escritura diz”, “Isaías diz”. Com a expressão “como está escrito” – ou expressões semelhantes – Paulo fundamenta a sua doutrina no Antigo Testamento. Isto, certamente, é muito significativo quando se estuda a relação de Paulo com o AT. E se pode concluir, sem dúvida, que o AT sempre se conservou para o Apóstolo Paulo um referencial decisivo em sua vida. Contudo, existe o contraponto da cultura do mundo helenístico em que Paulo nasceu. Nascido em Tarso (At 21,39; 22,3), o Apóstolo Paulo, desde o nascimento, esteve envolvido pelo mundo helenístico.

Devido à sua situação favorável ao tráfego e ao comércio, Tarso era então uma cidade helenística florescente. Era também famoso centro de educação grega. Ocasionalmente se menciona Tarso ao lado de Atenas, por causa de sua importância cultural. Segundo o geógrafo Estrabão, em Tarso reinava tamanho interesse pela filosofia, e todos os outros ramos da formação geral, que esta cidade superava Atenas e Alexandria, e qualquer outra cidade da época, em que existiam escolas e estudos de filosofia. Além disto, em Tarso existiam variadas escolas de retórica. Estrabão enumera, então, uma série de filósofos estóicos, provindos de Tarso. Vivendo num contexto cultural destes, embora Paulo tivesse nascido numa família judaica, que lhe transmitiu a religião paterna, mandando-o inclusive para Jerusalém para estudar, contudo não se pode duvidar que um judeu, que falava grego como ele, na juventude não se tivesse imbuído da conceituação helenística. É verdade, se torna difícil precisar com que profundidade o helenismo penetrou na alma de Paulo. Aliás, o próprio helenismo é um fenômeno complexo. Não está compendiado em nenhum livro, mas deixou sinais por toda parte. O Helenismo não é uma religião, como o judaísmo; nem uma escola filosófica, como o platonismo; nem um sistema ético, como o estoicismo. Não obstante, influenciou a religião, a filosofia, a ética, a sociedade, as artes e a linguagem, perpassando todos os âmbitos da vida. O helenismo também não pode ser reduzido a aspectos políticos, econômico-sociais, culturais ou religiosos. Mas, de fato, envolve todas estas áreas. Desta forma, embora Paulo sempre se tenha identificado como judeu, não se deve esquecer que ele era um judeu da diáspora, falava grego e citava preferencialmente a tradução grega da Bíblia. No decorrer de sua missão apostólica, pregou e fundou as suas comunidades em ambientes helenísticos, um contexto que lhe era familiar. Por isto, para entender Paulo, é preciso situá-lo em relação a estes dois mundos culturais: o judaísmo e o helenismo. O fato de Paulo ter nascido e ter sido educado em centros urbanos condicionou também sua linguagem. Diferentemente de Jesus, que usa preferentemente exemplos do meio rural em sua pregação, o Apóstolo dos Gentios busca as suas ilustrações em situações da vida na cidade. Conhece as diversas filosofias dos ambientes em que discursa e recorre à linguagem e literatura de seus interlocutores. Basta relembrar aqui o discurso de Paulo no Areópago de Atenas.

3. A relação de Paulo com Jerusalém
O que podemos dizer sobre a trajetória de Paulo? As únicas fontes de informação sobre a vida do Apóstolo são os Atos dos Apóstolos e as cartas que o próprio Paulo escreveu. O consenso a que os pesquisadores chegaram, a partir das fontes disponíveis, é mais ou menos o seguinte: Paulo é um pouco mais novo que Jesus; pelos 15 anos vai a Jerusalém e freqüenta as aulas da escola rabínica; por ocasião da morte de Estêvão (pelo ano 36) os Atos dos Apóstolos falam dele como o “jovem Saulo” (At 7,58), e na carta a Filemon, o próprio Paulo se caracteriza como o “velho Paulo”.

A primeira vez em que Paulo é mencionado no cenário histórico cristão ocorre na descrição do martírio de Estêvão. Em relação à sua passagem do judaísmo para o cristianismo, há três descrições que falam de sua conversão: na primeira, narrada por Lucas, encontramos em At 9; a segunda, Lucas atribui ao próprio Paulo, quando este, pelo ano de 58 ou 59, se dirige ao povo de Jerusalém, por ocasião de sua prisão; a terceira descrição também encontramos em Atos dos Apóstolos (At 26), na qual Lucas registra o discurso de Paulo na presença do Rei Agripa, no tribunal perante o procurador Festo. Isto teria ocorrido pelo ano 60. Estes relatos são, de certa forma, complementados e reforçados com alusões feitas por Paulo em algumas de suas cartas (l Cor 15).

Após a sua conversão, Paulo informa que passou um tempo na Arábia (Gl 1). Dali volta para Damasco e, cerca de três anos depois, vai a Jerusalém e se encontra com Cefas e Tiago, o irmão do Senhor.

Depois de superar as desconfianças da comunidade “cristã” de Jerusalém, ele participa desta primeira comunidade dos seguidores do “caminho”. Mas as perseguições a esta comunidade, a morte do Apóstolo Tiago, filho de Zebedeu (por 44 dC), os desentendimentos entre os judaizantes e helenistas, principalmente em relação aos costumes a serem seguidos pelos membros da comunidade, fazem com que Paulo volte ao seu mundo cultural: Cesaréia, Tarso, Antioquia. A partir dali, ele se torna o grande missionário dos gentios, com seu estilo tipicamente paulino. Mas o que seria esta característica tipicamente paulina, diferente das características da comunidade de Jerusalém? Estas diferenças, certamente, foram os motivos para Paulo buscar o seu próprio caminho. Vejamos.

4. Características da Comunidade de Jerusalém
Como teria nascido esta primeira comunidade dos seguidores de Jesus em Jerusalém? Paulo nos dá uma dica em 1Cor 15,5-11, onde ele menciona as aparições do Senhor, segundo uma determinada ordem. Na seqüência destas aparições parece encontrar-se um pouco da história da Primeira Comunidade de Jerusalém. O relato diz:

“Apareceu a Cefas depois aos Doze; em seguida apareceu a mais de 500 irmãos de uma só vez, dos quais a maioria ainda vive, e alguns já morreram; depois apareceu a Tiago e, em seguida, a todos os apóstolos. Por último, apareceu também a mim, como a um aborto. De fato, eu sou o menor dos Apóstolos e nem mereço ser chamado de apóstolo…”.

O que podemos deduzir desta hierarquia de aparições?

A primeira aparição, diante de Pedro, certamente ocorreu na Galiléia. A segunda aparição, diante dos Doze, também deve ter ocorrido na Galiléia, e ela significa o reencontro do grupo mais íntimo de Jesus. De acordo com os relatos de Marcos e Mateus, os discípulos, após a prisão de Jesus, se haviam dispersado, e, agora se reencontram na Galiléia. Mas a terceira aparição, diante de mais de 500 irmãos, só pode ter ocorrido em Jerusalém. Pois, para encontrar 500 irmãos reunidos num mesmo lugar, isto é, 500 pessoas que se conhecem e podem se reencontrar, para isto só havia condições em Jerusalém. Eventualmente poderia ter ocorrido que 500 adeptos de Jesus se tivessem encontrado na Galiléia e, sob a direção dos Apóstolos, tivessem marchado para Jerusalém. Mas isto é pouco provável. O mais provável é que Paulo, com o relato dessa aparição, esteja indicando o momento em que a pregação dos Apóstolos, em Jerusalém, demonstra um grande sucesso. O Senhor, através de sua aparição, confirma o testemunho de seus discípulos, firmando assim a comunidade dos fiéis, em formação, sob fundamentos sólidos. Mas se admitirmos que, com a terceira aparição, a comunidade de Jerusalém já está estabelecida, surge uma nova dificuldade. O que significaria a quinta aparição “a todos os apóstolos”? Será que Paulo, aqui, está entendendo o termo “apóstolo” num sentido lato, incluindo os missionários em geral? A expressão “todos os apóstolos” parece significar outra coisa do que os “Doze Apóstolos”. De fato, na época apostólica, o conceito “apóstolo” não estava restrito aos Doze. A prova mais evidente está na carta aos Romanos 16,7, onde Paulo destaca Andrônico e Júnia, qualificando-os como “importantes apóstolos, convertidos a Cristo antes dele”. Mas, apesar destas considerações, parece que “todos os apóstolos”, aos quais o Senhor apareceu, segundo Paulo, são um grupo fechado, enquanto que os missionários, no início do cristianismo, não formam grupos fechados, pois aumentam constantemente. Desta forma o Senhor não lhes poderia ter aparecido de uma vez. Talvez até se fomentasse inicialmente na comunidade de Jerusalém, que qualquer missionário, para ser legitimado, tivesse que ser agraciado com uma manifestação do Senhor. Mas esta idéia foi logo desfeita com a ascensão do Senhor, pondo um fim nesta expectativa de repetidas e continuadas aparições. Por isto, uma acurada exegese demonstra que, no caso da aparição do Senhor a “todos os apóstolos”, Paulo, de fato, tem em mente um grupo restrito de discípulos de Jesus em Jerusalém. E, certamente, aqui, nos pode ajudar a aparição anterior a Tiago, irmão do Senhor. Interessante é que somente através da passagem de 1Cor 15,7 sabemos que o Senhor apareceu individualmente a Tiago. Nem os Atos dos Apóstolos falam desta aparição. Outra questão que se impõe considerar é que os familiares de Jesus, durante a sua vida pública, não eram favoráveis à sua missão. É verdade que Lucas menciona rapidamente em At 1,14 que, já antes de Pentecostes, Maria e os irmãos de Jesus, faziam parte do grupo de seus discípulos. Mesmo assim fica a pergunta se Tiago já pertencia ao grupo dos discípulos de Jesus, durante a sua vida pública. Pelo que parece não. E uma forte suposição revela que Tiago apenas aderiu à comunidade de Jerusalém quando esta já estava fundada. Portanto, ele não retornou da Galiléia para Jerusalém com os Doze, mas ele apenas aderiu à causa cristã, quando ela já demonstrava sucesso em Jerusalém. Mas, sendo assim, por que ele foi incluído entre os Apóstolos pela comunidade (Gl 1,19; 1Cor 9,5)? E não só isto, Tiago passa para o primeiro lugar entre os Apóstolos, ele se torna a cabeça e o dirigente da Comunidade. Tanto Atos como Paulo dão este destaque a Tiago (Tg 12,17; 15,13; 21,18; Gl 2,9). Paulo, inclusive, o coloca em primeiro lugar entre as colunas da Igreja (Tiago, Pedro e João, Gl 2,9). Várias passagens acentuam esta primazia de Tiago. Em Gl 2,12 nem mesmo Pedro se atreve a enfrentar a autoridade dos que tinham vindo a Antioquia, a mando de Tiago, e o repreenderam. Segundo At 21,18-26 também Paulo desistiu de uma posição sua por causa de Tiago.

Diante destas considerações pode se esclarecer a aparição do Senhor a Tiago e depois a “todos os Apóstolos”. “Todos os Apóstolos” seriam então Tiago, mais os Doze. Deve-se admitir, então, que, após a aparição do Senhor a Tiago, individualmente, se seguiu uma outra que o juntou ao grupo dos Doze Apóstolos, que lhe conferiu a dignidade de Apóstolo, e explica a sua posição na liderança da comunidade de Jerusalém. Apenas o fato de ser irmão do Senhor, não legitimaria a sua liderança. Acentuar este detalhe, certamente, era importante para Paulo, pois, segundo ele, como veremos, a adesão a Jesus não se legitima pela “carne e pelo sangue”. Portanto, não é uma questão de herança. Assim, Paulo revela que já a comunidade-mãe da Igreja não aceitou a legitimidade de uma autoridade monárquica, de herança por parentesco biológico, tradicional no mundo judaico e semita, em geral (ainda hoje os descendentes de Maomé têm lugar especial na cultura maometana!). Nem a aparição individual, nem o parentesco com Jesus garantiam a Tiago a autoridade sobre os outros Apóstolos, era necessário que tivesse uma experiência religiosa junto com os outros Apóstolos.

Com esta aparição do Senhor a “todos os Apóstolos”, a comunidade de Jerusalém considerou encerradas as manifestações de Jesus. A partir de então não esperavam mais outras revelações. Paulo também confirma esta posição, quando ele se considera em relação aos outros Apóstolos como um “abortivo”. Mas, o que significou esta convicção? Em primeiro lugar, a comunidade podia agora considerar os conteúdos de sua fé completos. Provavelmente nem todos na comunidade concordaram pacificamente com esta idéia, pois, poderia-se esperar que Jesus continuasse a aparecer toda vez que a comunidade necessitasse de conselho e ajuda. De fato a comunidade de Jerusalém não foi por este caminho. Pelo, contrário, em determinado momento declarou que uma tinha sido a última aparição do Senhor. E isto foi fundamental para as convicções da comunidade e a formação do conceito de Igreja.

Mas, o que aconteceu a partir de então?
1) Com a ascensão nasceu também a idéia que a ausência do Senhor seria por pouco tempo. E cresceu a idéia da Segunda vinda. E a comunidade de Jerusalém foi fortemente marcada pela escatologia.

2) Neste contexto se afirma o conceito de autoridade e de tradição. As aparições tinham despertado o espírito profético livre. Desde então se desenvolve, não só na comunidade de Jerusalém, mas em todas as comunidades cristãs uma rica vida pneumática. Mas o fato de se restringir as revelações a um determinado tempo, relacionado com a ressurreição, fez com que se afirmasse o conceito de tradição. Estas revelações, no futuro, somente poderiam ser mediadas pela tradição. O carisma e tradição nascem, portanto, praticamente ao mesmo tempo na Igreja. Mas na comunidade de Jerusalém, sob a autoridade de Tiago, a tradição começa a sufocar o carisma. Nenhum carisma se poderia sobrepor às revelações fundamentadas nas aparições do Senhor.

3) Este cerceamento do carisma fez com que a preocupação com a tradição se centrasse na “apostolicidade”. Por isto, já neste momento, também se firma o conceito de apostolicidade. Neste sentido, os Apóstolos foram encarregados por Cristo para divulgarem ao mundo a ressurreição como ápice de seu Evangelho. Visão e vocação se juntam nos Apóstolos, como se juntavam nos profetas do Antigo Testamento.

4) Mas esta caracterização do “apóstolo” é contestada por Paulo em 1Cor 15,5-11. Pois se a visão fosse suficiente para constituir alguém como Apóstolo, todos os 500 irmãos, aos quais o Senhor apareceu, deveriam se ter transformado em apóstolos. Mas eles, com a sua visão, apenas se transformaram em testemunhas (mártires), mas não apóstolos. O que transformava uma testemunha em apóstolo era a consciência da missão, um mandato explícito recebido de Cristo para, através da pregação, agir em favor de sua causa . Paulo viveu nesta consciência. Paulo tem a certeza de que recebeu de Cristo o mandato da pregação, e isto desde o seio materno (Gl 1,15). Podemos supor esta mesma consciência nos outros Apóstolos. Indicações de um tal mandato encontramos durante a vida de Jesus e também depois da ressurreição (Mt 28,19 e At 1,8). Por isto, os Apóstolos se reencontram na Galiléia e se dirigem a Jerusalém para cumprirem o mandato do Senhor. E em Jerusalém eles se distinguem dos outros apóstolos, que são apenas apóstolos da Igreja, o que equivale a testemunhas do que ouviram dos Doze. Encontramos, portanto, já na comunidade de Jerusalém uma certa hierarquia, uma ordem, uma Igreja organizada, na qual os indivíduos são assumidos. Nesta comunidade se destaca o grupo dos Apóstolos, isto é, Tiago com os Doze, que possuem um primado na condução da comunidade. Em seu testemunho se fundamenta a comunidade, e tudo que nela se desenvolve em vida pneumática. Tudo está sujeito ao seu testemunho. Por isto Paulo os denomina de “colunas” da Igreja. Os Apóstolos não receiam em buscar certos direitos, por causa de sua posição. Para determinados serviços institui-se assim o diaconato, e em viagens de missão os Doze, também Paulo, levam consigo auxiliares. Paulo atribui a seus auxiliares o encargo de batizarem (1Cor 1,17). Provavelmente também se fortificou em Jerusalém a idéia de que “quem prega o Evangelho tem o direito de viver do Evangelho” ( 1Cor 9,1-5). Paulo respeita este direito, mas, ele próprio, prefere seguir a tradição rabínica, pela qual o serviço religioso deve ser um serviço gratuito, e o rabino deve sustentar-se através de uma outra profissão, que aprendeu durante a sua formação.

5) A maneira como a primeira comunidade se instalou em Jerusalém demonstra que a “cidade santa” dos judeus adquiriu um sentido especial para a primeira geração de cristãos. Por que os Apóstolos não ficaram na Galiléia, mas se dirigiram a Jerusalém, para ali iniciarem a comunidade? Certamente, porque lá haveriam de esperar a parusia, a instauração do Reino de Deus. E como se relata por ocasião da morte de Estêvão, muitos membros da comunidade de Jerusalém se espalharam pela Judéia e pela Samaria, menos os Apóstolos. Isto, talvez, indique que inicialmente se tinha a convicção de que os Apóstolos não deveriam se afastar de Jerusalém. A única exceção se concede a Pedro, a quem em Gl 2,7s é atribuída a missão entre os circuncidados. Isto não significa que os Apóstolos estivessem inativos em Jerusalém. Pois ali havia suficiente trabalho para a divulgação do Evangelho.

6) Aos poucos a comunidade de Jerusalém amplia a sua atividade. Surgem os diáconos, que, inicialmente, deviam cuidar dos pobres. Mas, logo em seguida, encontramos os diáconos Estêvão e Filipe atuando como pregadores. Estêvão em Jerusalém e Filipe em Samaria e Cesaréia (At 21,8). Paulo segue o exemplo da comunidade de Jerusalém, e tem a seu serviço diversos diáconos e outros auxiliares. Estes prestam diversos serviços a Paulo. Paulo também se utiliza de diaconisas, como Febe (Rm 16,1). Mas é interessante observar que os “missionários” que partem de Jerusalém não criam centros de referência novos, através de suas missões. As comunidades que fundam permanecem dependentes de Jerusalém, e de lá são supervisionadas. Pedro e João são enviados para supervisionar as comunidades da Samaria; Barnabé, para Antioquia. Também as comunidades de Paulo recebiam enviados de Jerusalém. Em certo momento, Paulo vê, por parte de supostos enviados da comunidade de Jerusalém, a mando de Tiago, uma intromissão indevida em sua atividade missionária, e os chama de “falsos apóstolos”. Mas nunca Paulo chama qualquer um dos Doze, ou mesmo Tiago, de falso Apóstolo. Pelo contrário, respeita a Comunidade de Jerusalém, vai ao Concílio de Jerusalém, e promove coletas para enviar para a comunidade, da qual ele mesmo partiu para a missão. Paulo reconhece que os pagãos receberam bens espirituais que provieram de Jerusalém, por isto o dever dos pagãos de enviarem donativos a esta comunidade-mãe. Como se observa, a comunidade de Jerusalém é um centro de referência, que sustenta a idéia que as comunidades cristãs, em última análise, são uma única grande comunidade. A própria comunidade de Jerusalém tem a consciência, que lá estão os que, em sentido próprio, são denomináveis de “santos”. Lá estão os Apóstolos, as colunas da Igreja, por isto a comunidade tem um direito de supervisão das outras comunidades, pois está a seu cargo zelar pela pureza da fé, ela representa o povo de Deus, o Israel de Deus. A Igreja, ao mesmo tempo, é uma grandeza terrena-celeste. Ela é transcendente em suas origens, mas concreta em suas determinações.

5. As comunidades de Paulo e seu conceito de Igreja
Vejamos o que Paulo tem de específico em relação ao conceito de Igreja da Comunidade de Jerusalém. Paulo não teve apenas desentendimentos legais com a comunidade de Jerusalém, nem se desentendeu apenas com algumas personalidades desta comunidade, mas, enquanto lutava por seu método apostólico, também desenvolveu um novo conceito de Igreja. Claro, ao mesmo tempo em que transformou o conceito originário, também conservou dele alguns aspectos importantes. Vejamos:

1) Assume da comunidade-mãe a idéia da Igreja como organização, na qual os indivíduos são assumidos. Também para ele a Igreja não é um aglomerado anárquico, mas uma organização que provém da vontade de Deus (1Cor 14,33).

2) Nesta organização cabe um lugar especial aos “Apóstolos”. O próprio Deus os constituiu como os primeiros na Igreja(1Cor 12,28). Paulo luta, naturalmente, para que ele tenha parte nesta “aristocracia” com pleno direito de ser Apóstolo. Nunca se envolve com os Apóstolos em desentendimentos tais, que chegasse a chamá-los de “falsos apóstolos”. Ele não apenas reconhece os Apóstolos, mas atribui-lhes a primazia como testemunhas do Evangelho (1Cor 15,5-7).

3) Paulo sempre conservou um venerável respeito para com a comunidade-mãe em Jerusalém, e procura transmitir este sentimento às suas comunidades. Por isto, incentiva os seus convertidos a contribuírem para as coletas, em favor dos “santos e necessitados” em Jerusalém. Quando ele, antes de sua programada viagem a Roma, faz um retrospecto de sua atividade, diz que anunciou o Evangelho de Jesus Cristo desde Jerusalém e seus arredores, até a Ilíria (Rm 15,19). Para Paulo, Jerusalém não foi apenas o ponto de partida ideal, mas continua o ponto central, em relação ao qual as restantes regiões apenas são arredores. Contudo, a moldura que dali resulta é uma originalidade de Paulo:

a) Paulo não coloca como centro de suas referências os Apóstolos, mas o Cristo vivo. Para ele, Cristo não é apenas um personagem histórico, cuja memória se deve lembrar, que fez milagres e ressuscitou, mas um Poder presente, atuante e sensível a todos os fiéis (2Cor 5,16). Por isto Ele não é apenas o conteúdo da pregação, mas também o verdadeiro fundamento da Igreja (1Cor 3,11). Ele é a cabeça que dirige os fiéis, seus membros (1Cor 11,3; Cl 1,18; 2,19). Isto significa, em última análise, que a Igreja, em primeiríssimo lugar, está fundamentada em Cristo e não em Pedro. Talvez, a frase e esta pedra era Cristo, em 1Cor 10,4, seja um reflexo desta convicção de Paulo.

b) A partir da convicção de que Cristo é o fundamento da Igreja (comunidade), os Apóstolos devem ser avaliados sob nova luz. Eles não aparecem mais como líderes autônomos da Igreja, mas como instrumentos, como servos, como anunciadores e mensageiros de Cristo (1Cor 3,5; 4,1-3; 2Cor 5,20; 6,4). Com isto, também, estava superada a diferença pessoal entre os Apóstolos, na medida em que isto parecia ter importância religiosa. Neste sentido, Paulo diz em Gl 2,6: No que se refere àqueles mais notáveis, pouco me importa o que eles eram então, porque Deus não faz diferença entre as pessoas (…). Portanto, a pessoa individual, em si, não importa. O que importa é o testemunho que ela dá de Cristo.

c) Como conseqüência deste ensinamento de Paulo, a relação, do Apóstolo com as suas comunidades, adquire feições novas, tipicamente paulinas. Fortifica-se a característica pneumática e autônoma da comunidade e do cristão individual. Segundo Paulo, o fiel não ouve apenas falar de Cristo, mas entra em contato pessoal com Ele, recebe o seu espírito. E isto o legitima a ter uma opinião sobre o sentido da mensagem de Jesus Cristo em sua vida (1Cor 2,15-16). Paulo, naturalmente, nunca imaginou que esta experiência pessoal com Cristo autorizasse qualquer fiel a relativizar o testemunho dos Apóstolos sobre a ressurreição do Senhor. Embora cada fiel tivesse o direito de submeter a si qualquer um, mesmo que fosse Paulo ou Pedro, contudo Paulo não renuncia ao direito de advertir os gálatas de sua incompreensão, e os coríntios de ainda serem crianças na fé. Não lhe importa ser julgado pelos coríntios, mas considera que possui o mesmo Espírito que eles, que lhe permite contestá-los. Mas deixa espaço para que a comunidade, com argumentos, o qüestione. Introduz, assim, o diálogo entre dirigentes e fiéis na Igreja. Inclusive encarrega a comunidade para que julgue se seu Evangelho, ou o Evangelho dos judaizantes é o verdadeiro. Esta relativa autonomia de cada fiel e de cada comunidade, no meu entender, abre espaço para uma Igreja-ecumênica no Terceiro Milênio. Uma Igreja Una na diversidade.

d) Com Paulo também se altera a relação das comunidades individuais com a Igreja como um todo. Para Paulo, a medida para se averiguar a autenticidade de uma comunidade cristã é a vida espiritual, que nela se desenvolve. E o autor desta vida espiritual não é ele, o apóstolo, e sim Cristo, que age por meio do Apóstolo. E se Cristo estiver ativo numa comunidade, então ela, em sentido pleno, será Igreja de Deus. Cada comunidade particular se torna assim uma manifestação da Igreja como um todo. Jerusalém apenas permanece um símbolo, uma referência à Igreja perfeita, à Jerusalém celeste.

e) Paulo também derruba o privilégio de “santidade” que a comunidade de Jerusalém parecia querer se reservar. Isto transparece, de forma enfática, quando, no início de suas cartas, escreve aos “santos” de suas comunidades, oriundos do mundo pagão, e, em outras passagens, gosta de chamá-los de “santos”. Disto se deduz que: “santos” não estão apenas em Jerusalém ou na Judéia, mas de igual forma em Corinto e em Roma. Paulo retira do conceito de santidade a auto-justificação do judaísmo, e a compreensão restrita da relação entre “santos e necessitados” da comunidade de Jerusalém. Só lhe interessa quem está em Cristo! E quem estiver em Cristo, foi santificado por Ele, possuindo, por isto, a mesma dignidade como aqueles que se converteram por primeiro.

6. Conseqüências do conceito de Igreja em Paulo
Pelas características da atitude de Paulo em relação às suas comunidades, como acima foi relatado, verifica-se que o conceito de Igreja do Apóstolo das Gentes diverge bastante do conceito da Comunidade-mãe de Jerusalém. Qual é o significado disto? Primeiramente, que já no início da história da Igreja se brigou pelo Primado. Primado de algumas pessoas, e primado por um lugar. Na medida em que Paulo espiritualizou o conceito de Igreja, ele quebrou a relação com um lugar, e tornou mais elástica a relação com determinadas pessoas. Parece que Paulo lutou por duas expressões de São João: O Espírito sopra onde quer (…) e nem em Jerusalém, nem no monte Garizim, mas Deus será adorado em espírito e verdade.

E o que resultou da luta de Paulo? De fato, o seu conceito de Igreja derrubou o Primado de Jerusalém. Naturalmente, para que isto se efetivasse contribuíram a morte de Tiago, a posterior destruição de Jerusalém por Tito e a multiplicação das comunidades cristãs no mundo helênico. Mas a idéia do Primado de um lugar não foi superada totalmente no cristianismo. O próprio Paulo, morrendo em Roma, assim como Pedro, contribuiu para que se transferisse para ali a idéia do primado de lugar, enraizada na comunidade de Tiago em Jerusalém. Assim, Roma, de certa forma, se torna Jerusalém. De fato se impôs na Igreja um meio-termo entre a compreensão da autoridade e a Ação de Cristo e de seu Espírito nas comunidades particulares e dos fiéis individualmente. Contudo, na história da Igreja, muitas vezes, se acentuou mais a obediência do que a consciência. Mas, a idéia paulina de que a autoridade cristã apenas se legitima como autoridade de serviço, de anúncio e de testemunho se impôs, ao menos, no ensino da teologia. Paulo relativizou uma Igreja como instituição, que estática e primordialmente zelasse pelas tradições, como queriam alguns membros da comunidade de Jerusalém. E se olhássemos para Santo Agostinho, ele não relativizou apenas o primado do lugar de Jerusalém, mas também o de Roma. Pois, quando muitos cristãos pesarosos se lamentavam que os bárbaros estavam destruindo Roma, onde estavam os túmulos de Pedro e Paulo, Agostinho lhes responde, dizendo que não era importante saber onde estavam os túmulos de Pedro e de Paulo; o importante era ter os escritos destes apóstolos e seguir os seus ensinamentos.

Além disto, Paulo tornou a Igreja menos escatológica e mais realista em sua vida no dia-a-dia. A comunidade de Jerusalém estava muito voltada para a nova vinda de Cristo. Paulo exigiu de seus fiéis que vivessem a vida em seu dia-a-dia, trabalhando; ganhando a vida com o trabalho de suas mãos, e não na ociosidade pela expectativa da vinda de Cristo. Quem não trabalhasse, que também não comesse!

Também é mérito de Paulo o ensinamento da igualdade fundamental de todos os seres humanos perante Deus. Assim o cristianismo, e a vida nas comunidades, se tornou cristocêntrico e não etnocêntrico. Homens e mulheres, livres e escravos, judeus e gregos tinham o mesmo valor. Aqui está o fundamento de todo humanismo cristão! Mas, ainda hoje, na prática não se assume plenamente as conseqüências deste ensinamento paulino. As mulheres continuam desiguais em algumas igrejas cristãs. Não podem exercer todas as funções permitidas aos homens. Por quê não? Nas comunidades de Paulo havia até apóstolas. E, de acordo com as necessidades e circunstâncias, Paulo criava novas funções em suas comunidades.

A Igreja de Paulo também deixou a sinagoga e se transformou numa Igreja da casa (oikia). Dali a par-oikia (a paróquia). Uma Igreja (comunidade) que não precisa de templos (nem de igrejas), mas se reúne nas casas de seus membros. A abóbada mais maravilhosa sob a qual se pode celebrar é a abóbada celeste. E não uma imitação dela, debaixo de telhados. Esta característica das comunidades de Paulo, comunidades que se reuniam em casas, embora não desaparecesse na história, contudo sob muitos aspectos sofreu restrições, a ponto de bispos (como o atual bispo do Recife) ainda hoje proibirem celebrações nas casas dos fiéis, supostamente alegando fundamentação na história e no Direito Canônico.

Desta forma, poderíamos continuar a pesquisar o que representou a novidade do conceito de Igreja de São Paulo para as comunidades cristãs, e que sugestões de criatividade ainda hoje sugere. Penso que as minhas observações são suficientes para nos inspirar uma vida cristã mais madura. Ficam, no entanto, muitas perguntas. Entre elas, as seguintes: A Igreja do Novo Milênio optará por seguir a Igreja de Tiago, predominantemente conservadora das tradições, ou o modelo praticado por Paulo, em que o Espírito dinamiza os carismas? Desejamos uma Igreja que se fecha em seus costumes e leis canônicas, institucionalizada a tal ponto que sufoque o carisma, ou uma Igreja inculturada-missionária, que se compreende como instituição-serviço, mediadora do carisma? Será que não poderíamos pensar também, para a Igreja do Terceiro Milênio, um triunvirato papal, já que, inicialmente, na Comunidade de Jerusalém as colunas da Igreja eram Tiago, Pedro e João?

Bibliografia
A bibliografia paulina é muito ampla, por isto não vou enumerar todas as obras que me inspiraram na reflexão acima. Apenas gostaria de destacar o seguinte livro: RENGSTORF, Karl Heinrich (Editor). Das Paulusbild in der neueren Deutschen Forschung. Darmstadt: Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 1969.

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Fonte: http://www.franciscanos.org.br/itf/revistas/estudosbiblicos/70_2.php










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